terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ignorar a realidade não a torna melhor



Perante a divulgação dos dados do Eurostat, qual a reacção do governo?
José Sócrates e a ministra  do Trabalho e da Solidariedade Social, em dia de inauguração de uma creche construída por privados, remetem-se ao mais profundo silêncio, deixando ao Secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional a tarefa de nos comunicar que os dados do Eurostat é que carecem de fiabilidade.

A realidade, por muito que Sócrates dela queira fugir, é que estes números correspondem a  mais de seiscentas mil pessoas, merecedoras de mais do que um silêncio ou uma declaração absurda de um qualquer Secretário de Estado.
  

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Entre nós e as palavras # 2


I.

É verdade, vivo em tempo de trevas
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrível notícia.

Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele li, tranquilo a atravessar a rua,
Não estará já disponível para os amigos
Em apuros?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)

Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando
Roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água  falta a quem morre de sede?
E apesar disso eu como e bebo.

Também eu gostava de ter sabedoria.
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
Retirar-se das querelas do mundo e passar
Este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência
Pagar o mal com o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los.
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!


II

Cheguei às cidades nos tempos da desordem
Quando aí grassava a fome
Vim viver com os homens nos tempos da revolta
E com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

Comi o meu pão entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.

As forças eram poucas. A meta
Estava muito longe
Claramente visível, mas nem por isso
Ao meu alcance.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.


III

Vós, que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundámos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo de trevas
A que escapastes.

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos
As guerras de classes, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.

E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.

Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.

Bertolt Brecht - "Aos que virão a nascer"

(Tradução: João Barrento)


(fotografia: "Clock" de Charlie Schreiner)

domingo, 22 de agosto de 2010

Tempos sombrios


Os sinais são evidentes e têm-se multiplicado nos últimos anos. A existência de uma deriva totalitária é cada vez mais visível em muitos países europeus. Os discursos nacionalistas, utilizando muitas vezes o pretexto da crise económica, têm subido de tom e dominado o espaço mediático. A opinião pública adere à propaganda xenófoba e racista da direita e da extrema-direita, como o demonstram sondagens e resultados eleitorais.

Os tempos de crise são sempre assim, um bom pasto para o inflamado discurso securitário. A crise é sempre causada pelo “outro”. O “outro” é sempre o estranho, o estrangeiro, o desempregado, o pobre, o elo mais fraco da cadeia social e económica. As notícias surgem diariamente de França, de Itália, da Hungria e de muitos outros lugares da Europa e do mundo.


Hoje, na Europa e no mundo, vivem-se tempos sombrios.
Em tempos sombrios, a solidariedade dá sempre lugar à mesquinhez, à intolerância e ao ódio.
É por isso necessário que a esquerda e os movimentos sociais se oponham e saibam travar este combate, sob pena de ser demasiado tarde.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Colocar o lixo no local adequado




Para além de Mário Machado, outros quatro arguidos foram condenados neste julgamento - dois deles a penas de prisão efectiva (Rui Dias foi condenado a 9 anos e Fernando Massas Gonçalves a sete anos e dez meses).

Mário Machado representa a escória fascista que se propõe combater a criminalidade, expulsar imigrantes e dar enxertos de porrada a "comunas e a paneleiros".
A escória que agride e mata por meras razões raciais, em nome de uma suposta "supremacia branca"  - recorde-se que Mário Machado já havia sido anteriormente condenado por envolvimento no homicídio de Alcino Monteiro, português de origem cabo-verdiana, agredido até à morte por um grupo de skinheads no Bairro Alto, em Lisboa, na noite de 10 de Junho de 1995.

Esta é a escória que conhecemos de outras paragens e épocas históricas.
Esta é a escória que combateremos sempre e que hoje recebeu uma pequena parte daquilo que merece...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O país a arder



Lamentamos desiludir João Cravinho, mas para nós é claro que as coisas no país estão a banhos.

Tal como é claro que Cavaco Silva e José Sócrates estão a banhos, indiferentes ao lume brando em que arde o país (no sentido literal e metafórico).

Ambos têm as suas agendas políticas bem definidas e nenhuma delas passa pela interrupção das férias para tratar de questões menores como a desagregação da Justiça ou os incêndios que lavram descontroladamente.

Em Setembro regressarão recauchutados e continuarão em silêncio, exceptuando um ou outro louvor de circunstância à bravura incansável dos bombeiros.

Sócrates e Cavaco não são responsáveis por nada. Neste país não existem responsáveis, muito menos responsáveis políticos.

A situação na Justiça será certamente causada por um qualquer mal entendido comunicacional entre hierarquias e os incêndios são apenas um inevitável fado sazonal (por isso não vale a pena discutir a falta de coordenação, de meios para os combater ou os erros na gestão florestal).

Sócrates continuará a falar de energias renováveis, de indicadores económicos favoráveis que apenas ele conhece e inaugurará mais uma inutilidade ou outra.

Cavaco continuará encerrado no seu silêncio seco e espartano, até ao anúncio formal da sua recandidatura a Belém (afinal a alteração do estatuto político dos Açores ou a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo eram bem mais graves, no entender da sua cabecinha rígida e formatada, do que o completo descrédito de um dos pilares fundamentais da democracia).

Até lá, o país continuará a arder (novamente no sentido literal e metafórico), refém das agendas políticas de Sócrates e de Cavaco.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ideias para este Verão - Reiniciar o sistema operativo do Medina Carreira

Porque será que sempre que vemos/ouvimos o Medina Carreira nos lembramos desta personagem???

Entre nós e as palavras # 1


Na cidade de Palaguín
o dinheiro corrente eram olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
que frequentavam aos grupos casas de chá.
Havia dramas e histórias de «era uma vez»...
Havia hospitais repletos
onde à porta o pus escorria para as valetas;
Havia janelas que nunca se abriam
e prisões descomunais sem portas;
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida;
Havia cães enormes e famélicos
devorando mortos insepultos e voantes;
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade;
Havia gente bebendo sofregamente
a água dos esgotos e das poças;
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguín
havia crianças sem braços e desnudas
que brincavam em parques de pântanos e abismos;
Havia ardinas que à tarde anunciavam
a falência do jornal que vendiam;
Havia cinemas onde o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam os sexos dos filhos para verem cinema)
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo;
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicílio;
Havia pobres que somente aceitavam como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos;
E havia ricos que pelos passeios
imploravam misericórdia e chicotadas;
Na cidade de Palaguín
Havia bêbados emborcando ácidos
e retorcendo-se em espasmos na valeta;
Havia gatos sedentos
que iam beber leite aos seios das virgens;
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
Havia velhas que se suicidavam
atirando-se das paredes para o meio da multidão;
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
– a população banhava-se frequentes vezes...
Na cidade de Palaguín
havia Havia HAVIA

Três vezes nove um milhão!

Carlos Eurico da Costa - "Palaguín"

sábado, 7 de agosto de 2010

Lido por aí...


Hoje recomendamos a leitura de dois textos com que nos cruzámos nos últimos dias.

O primeiro, da autoria de Daniel Oliveira, foi publicado a 31 de Julho na edição impressa do Expresso e já se encontra disponível on line (o texto integral, intitulado "A vida dos outros", poderá ser lido no Arrastão ou no site do Expresso):

"Paulo Teixeira Pinto é autor de uma proposta de revisão constitucional que pretende liberalizar os despedimentos. Paulo Teixeira Pinto garantiu para si próprio, no BCP, uma indemnização de 10 milhões de euros e uma pensão anual de 500 mil até ao fim da vida. Ernâni Lopes propôs a redução salarial dos funcionários públicos em 10, 20 ou 30 por cento. Sem explicações. A cru. Ernâni Lopes recebe, desde os 47 anos, uma reforma do Banco de Portugal. Campos e Cunha defendeu a taxa fiscal plana, o que representaria uma perda fiscal significativa para o Estado e, já agora, o fim do papel redistributivo dos impostos. Campos e Cunha recebe, desde os 49 anos, com prejuízo para os contribuintes, uma reforma de oito mil euros por ter ocupado o cargo de vice-governador do Banco de Portugal por seis anos. Terá mesmo abandonado o Governo para não ter de deixar de a receber."

O segundo, "Sarkozy ou a direita sem máscara", de José Manuel Pureza, foi ontem publicado no esquerda.net (onde poderá ser lido na sua versão integral):

"O darwinismo social co-natural à Direita tem na estigmatização dos pobres a sua ferramenta ideológica mais eficaz. Em Portugal como em França, a Direita fabrica e dissemina representações dos pobres em que se amalgamam caoticamente indolência, criminalidade, impermeabilidade cultural e ameaça à ordem. Em última análise, essas representações estimulam o que constitui hoje um dos núcleos definidores da cultura política da Direita: a diferenciação do valor dos movimentos transnacionais – apologia entusiástica da mais plena liberdade dos movimentos de capitais e de mercadorias, por um lado; por outro, percepção do movimento de pessoas como fonte de todas as ameaças. Disciplinar as periferias (tanto territoriais como culturais ou sociais) é pois uma exigência estratégica da Direita."

O texto de José Manuel Pureza, bem como o de Daniel Oliveira, merecem leituras atentas e reflexões aprofundadas, principalmente por parte dos que advogam o fim das ideologias e da distinção entre Esquerda e Direita. 

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Inevitabilidades?

  

Em pleno estio e enquanto a maioria da população anda mais ou menos distraída, o Conselho de Ministros deu ontem o tiro de partida para o plano de privatizações previsto no PEC.

Em relação ao BPN, tal como prevíamos, a equação é simples: o governo encaixa cerca de 180 milhões de euros através da venda da rede de balcões e todos nós pagamos os 4000 milhões de euros desembolsados pelo Estado, através da Caixa Geral de Depósitos, no processo de "viabilização" do banco.

Em síntese, a factura correspondente à nacionalização dos prejuízos de BPN, resultantes das fraudes financeiras e da gestão danosa cometida pelos responsáveis do banco, será paga por todos os contribuintes.
Esta é apenas mais uma das "inevitabilidades" contidas no PEC...

O anúncio das novas fases de privatização da Galp e da EDP, também elas previstas no pacto aprovado pelo PS e pelo PSD, mais não são do que o avesso da privatização do BPN.
Aqui privatizam-se os lucros, descapitaliza-se o Estado e entregam-se interesses estratégicos às mãos dos privados.
Esta é apenas outra das "inevitabilidades" contidas no PEC... 

Nós, como já aqui dissemos, estamos a ficar demasiado fartos de inevitabilidades...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Tridente & Arpão - A arte de afundar mil milhões de euros



O primeiro dos dois submarinos encomendados pelo Estado à companhia alemã Ferrostal, o Tridente, foi hoje entregue à armada portuguesa. O segundo, o Arpão, será entregue no final do ano ou no início de 2011.


Da próxima vez que ouvirem o líder do CDS a debitar uma das suas propostas populistas de combate aos “preguiçosos” que vivem à custa do Rendimento Social de Inserção e do Subsídio de Desemprego, recordem-se que as duas inutilidades submersíveis, adquiridas por Paulo Portas, custarão “apenas” mil milhões de euros, 0,6% do PIB, e contribuirão para o agravamento do défice dos próximos anos…

domingo, 1 de agosto de 2010

Reviralhos Sound System # 4



Manu Chao - "Clandestino" (1998)

A Europa que queremos não é a de Sarkozy




Depois da perseguição aos ciganos, Sarkozy avançou esta semana com a proposta de retirar a nacionalidade francesa aos estrangeiros que atentem contra as autoridades públicas. Fazendo eco da agenda da extrema-direita, o presidente francês propõe ainda que seja recusada a nacionalidade automática, quando atingirem a maioridade, aos menores que cometam algum delito.
No mesmo discurso em que apresentou as novas medidas de combate à criminalidade, Sarkozy defendeu que cada um deve ser “digno” para ter direito à nacionalidade francesa.

Certamente que Sarkozy, ele próprio filho de imigrantes, se julga mais “digno” de ostentar a nacionalidade francesa do que as mulheres que a polícia agrediu num subúrbio de Paris, no passado dia 21 de Julho.
As mulheres, de origem africana mas maioritariamente de nacionalidade francesa, estavam a viver em tendas e protestavam pacificamente pelo direito a uma habitação permanente para as suas famílias, após terem sido desalojadas das habitações que ocupavam.
O vídeo da intervenção policial, filmado por um elemento da associação Droit au Logement (DAL) e divulgado pela CNN, revela não só a brutalidade da intervenção policial mas também no que consiste o combate à criminalidade defendido por Sarkozy.

A associação entre imigração e criminalidade é uma velha prática da direita e da extrema-direita. A actual crise económica e social serve-lhes de ignição ao discurso xenófobo e à imposição de modelos securitários, onde em nome da segurança se atropelam os direitos dos cidadãos.
A história do século XX demonstrou-nos ao que conduz um estado policial e totalitário. Compete-nos a nós, homens e mulheres de esquerda, denunciar e combater estes novos eugenismos sociais que despontam na Europa.

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