sábado, 25 de junho de 2011

Se não fosses idiota, o que gostarias de ter sido? (parte IX)


A propósito desta entrevista de Medina Carreira, um poema de Alberto Pimenta:

I

o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua
própria grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.

no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.

de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.

o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra
em tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.

no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho-da-puta.

todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções
em ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

dentro
do pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os
grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

tudo o que é mau
para o diz o pequeno filho-da-puta
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.

é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande filho-da-puta
tudo aquilo de que o grande filho-da-puta
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

de resto
o pequeno filho-da-puta
vê com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.


II

o grande filho-da-puta
também em certos casos
começa por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir um dia a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.

de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.

o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra
em tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.

por isso,
o grande filho-da-puta
tem orgulho
em ser
o grande filho-da-puta.

todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções
em ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

dentro
do grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

tudo o que é bom
para o grande filho-da-puta
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.

é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno filho-da-puta
tudo aquilo de que o pequeno filho-da-puta
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

de resto,
o grande filho-da-puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.

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SlutWalk Lisboa






sexta-feira, 24 de junho de 2011

O simbolismo é lixado...


Um detalhe, um mero pormenor insignificante que ontem encheu manchetes de jornais e teve honras de destaque em telejornais: Passos Coelho anuncia que vai voar em classe económica nas suas deslocações europeias.

O estado de graça de Passos Coelho iniciava-se da melhor maneira.
Pretensamente discreto, mas rapidamente mediatizado, "o exemplo" transforma-se rapidamente em propagandazinha populista para o povo aplaudir e comentador/pivot televisivo elogiar: "o início de uma nova era", "o fim do charco governativo", "o exemplo vindo de cima", "um acto simbólico da maior importância"...

Mas como a demagogia de pacotilha tem muito que se lhe diga, hoje ficámos a saber que afinal os membros do Governo não pagam viagens em voos da TAP...

O simbolismo, quando desonesto e mal amanhado, é lixado.

É um pássaro? É um avião? Não, é o novo super-cachorro austeritário de Angela Merkel!


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Os professores e os cantos de sereia

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Antes das eleições de 05 de Junho bastava percorrer alguns dos blogues ligados à educação para se perceber o sentimento maioritário da classe docente: derrotar o PS.
Se o sentimento geral era mais do que compreensível, os meios propostos para atingir tal fim pareciam-nos maioritariamente imponderados e irreflectidos.

Encontrámos tabelas, organizadas por distritos, onde se demonstrava em que partido valia a pena votar para impedir a eleição de deputados do PS (como se fosse igual votar na CDU, no CDS, no BE ou no PSD)...
Lemos comentários de professores que afirmavam sempre ter votado em partidos de esquerda e que apelavam ao "voto útil" no PSD e no CDS...
Pelo meio fomos lendo alguns comentários avisados, mas claramente minoritários, que alertavam para as consequências para a educação de virmos a ter uma maioria de direita e que recordavam quais as forças políticas que desde o início haviam apoiado as lutas dos professores...

Durante a campanha eleitoral, os professores foram-se entretendo com a novela que envolvia Santana Castilho e o lançamento de um livro, foram especulando sobre os eventuais ministeriáveis, foram discutindo o "eduquês", foram inventando mais uns quantos possíveis salvadores da pátria e, acima de tudo, foram-se esquecendo das questões essenciais: o que defendia cada partido para a educação e o que estava previsto no acordo que PS-PSD-CDS assinaram com a troika.

Conhecidos os resultados das eleições e revelado o nome do novo titular da pasta da educação, as expectáveis reacções de júbilo: "conseguimos!", "adeus Sócrates!", "o Nuno Crato é uma excelente escolha!", "agora é que vai ser!"...

E chegados aqui perguntamos: agora é que vai ser o quê? 

Depois da poeira assentar, depois de cessarem os cantos de sereia, depois dos pretensos pseudo-gurus da educação pararem de se colocar em bicos de pés (em busca de um qualquer lugar na nova equipa governativa), teremos certamente oportunidade de voltar a discutir e analisar as medidas que o novo governo implementará na área da educação. 
Até lá, leiam na íntegra o texto que referimos, pois parte substancial do que será a política elitista de Nuno Crato está lá plasmada, sem rodeios nem falsas expectativas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Mais uma vez se confirma que é um homem de palavra...

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Estamos à espera...

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19 Junho - em Barcelona, 260 mil "indignados" cantaram "L'Estaca"

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domingo, 19 de junho de 2011

19 Junho - 150 mil "indignados" em Madrid

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Um relato detalhado do protesto de hoje, em Madrid, pode ser lido em madrid.tomalaplaza.net





Começar de novo



A entrevista de Francisco Louçã ao Diário de Notícias/TSF aflora alguns dos motivos que conduziram à derrota da esquerda nas legislativas do passado dia 05 de Junho.
Estando o diagnóstico parcialmente efectuado, urge agora avançar para a fase seguinte: aprofundar a análise das causas do desaire eleitoral do Bloco de Esquerda e debater, de forma consistente, a construção de uma alternativa credível ao modelo neoliberal que nos tem governado.

Apesar da multiplicação de depoimentos, textos, declarações e entrevistas de figuras ligadas ao Bloco, parece-nos que o essencial continua por fazer.
Duas semanas após as eleições, o que se assiste é à exposição pública de clivagens internas, pessoais e grupais, que apenas contribuem para o afastamento de muitos e oferecem à direita múltiplos argumentos para enfraquecer o Bloco junto da opinião pública.
O que interessa ao eleitorado do Bloco, bem como a muitos dos seus aderentes, não é a constituição geometricamente representativa da nova comissão política. Aliás, o equilíbrio interno das diversas tendências fundadoras do Bloco, que já não representam hoje em dia a maioria dos militantes, parece-nos um anacronismo e um perigoso factor potenciador do afastamento de muitos activistas, aderentes ou não.

Desde o início que defendemos que o problema do Bloco não é o seu coordenador, antes pelo contrário. 
Prolongar a discussão em torno de pessoas e/ou da representatividade interna, não é certamente o caminho acertado para quem afirma e advoga um modo diferente de fazer política.

O que importa discutir é a forma de construir uma maioria social, eleitoralmente consequente, que se reveja nas propostas políticas da esquerda.
O que importa  debater é a necessidade urgente de reinventar a intervenção da esquerda nos movimentos sociais e nas anquilosadas estruturas sindicais.
Tudo o resto, que engloba quase tudo o que se tem discutido nos últimos quinze dias, não passa de uma falsa reflexão, inconsequente e prejudicial para os objectivos desta esquerda que se quer ampla e plural.

Sem uma reflexão verdadeiramente consequente, que permita identificar erros e corrigir estratégias, dificilmente conseguiremos responder de forma estruturada à ofensiva neoliberal em curso, que se agravará com a nova maioria de direita. 
Apesar das diversas promessas, aparentemente nada disto está a ser feito, o que não augura nada de bom para o futuro da esquerda e para os confrontos políticos que se avizinham.

Este é pois o momento de começar de novo, sem tibiezas ou tiques herdados do velho centralismo democrático.
Ainda vamos a tempo, basta que todos o queiram.

19 Junho - Manifestação Internacional



quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quem são os violentos?

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Um vídeo, divulgado hoje, revela a existência de polícias à paisana infiltrados entre os "indignados" de Barcelona.
A  táctica é antiga e  permanece eficaz: ateia-se a violência, provoca-se uma carga policial e está montada a estratégia necessária para descredibilizar um movimento de matriz pacífica (a comunicação social encarrega-se do resto).


De  Barcelona  ao Rossio, passando por Atenas, faz sentido questionar: quem são os violentos?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Barcelona, Atenas e Brecht


"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem."
Bertold Brecht
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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Boas notícias vindas de Itália



O resultado vinculativo dos referendos, realizados ontem e hoje, demonstraram uma clara vontade do povo italiano em dizer não à energia nuclear, não à privatização/liberalização da água e ainda não à imunidade judicial dos responsáveis políticos.

Apesar dos apelos à abstenção efectuados pela direita, a afluência às urnas e a clara vitória do "Sim" nas quatro questões referendadas (que, neste caso, significa "Não") revelam uma crescente rejeição popular das políticas defendidas por Sílvio Berlusconi. 

Hoje, apetece-nos dizer: "Questo è solo l'inizio!"

Entre nós e as palavras # 25


há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto - "Salsugem / 9"
 
 
(Fotografia: Paulo Nozolino - pormenor da imagem de capa do livro "Horto de Incêndio")
 

domingo, 12 de junho de 2011

"Tango do Antigamente"

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Depois dos inenarráveis discursos de Cavaco Silva e de António Barreto nas comemorações oficiais do Dia da Raça Dia de Portugal, do retro-conservadorismo dos Casamentos de Santo António e em plena contagem decrescente para o passadismo kitsch das Marchas Populares, só nos apetece ouvir isto:

"No nos vamos, nos expandimos"


Sob o lema  "No nos vamos, nos expandimos", a acampada da Puerta del Sol chega hoje ao fim. Quase um mês após o seu início, o movimento 15-M propõe-se encetar uma nova fase de mobilizações e acções descentralizadas, das quais fazem parte o protesto internacional agendado para o dia 19 de Junho.

No dia em que se desmonta a acampada de Madrid, sugerimos a leitura deste dossier sobre o Movimento 15-M e recuperamos o sábio depoimento de Eduardo Galeano, recolhido em finais de Maio na acampada de Barcelona.
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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cinematógrafo do Reviralhos # 10


Fantasia Lusitana (2009)













Título: Fantasia Lusitana (2009)

Realização: João Canijo

Argumento: João Canijo

Vozes: Hanna Schygulla, Rudiger Vogler e Christian Patey

Montagem: João Braz

Duração: 64 minutos


Reviralhos Sound System # 26 (edição especial)



Penguin Cafe Orchestra - "Air a Danser" (1982)




Penguin Cafe Orchestra - "Perpetuum Mobile" (1987)




Penguin Cafe Orchestra - "Paul's Dance" (1982)




Penguin Cafe Orchestra - "Salty Bean Fumble" (1982)




Penguin Cafe Orchestra - "Music For a Found Harmonium" (1984)

Para além das comemorações rançosas, dos discursos eivados de nacionalismo bacoco, do pechisbeque das condecorações, das ridículas paradas militares... o que temos, verdadeiramente, é um povo à rasca

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ainda no rescaldo das eleições legislativas

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Ainda no rescaldo das eleições legislativas, e em modo de contributo para a tão necessária reflexão de toda a esquerda, vale a pena ler na íntegra o texto "Aprender sempre", da autoria de Sandra Monteiro (directora da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique):

Com os resultados das eleições legislativas de 5 de Junho tornou-se ainda mais difícil romper com as políticas de austeridade impostas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). É uma má notícia para Portugal, mas também para os defensores de uma Europa coesa e social. É um bilhete simples, numa viagem que ameaça ser sem regresso, para uma crise ainda mais prolongada e profunda. Com mais regressão social e mais recessão económica.

O líder do Partido Social Democrata (PSD) discursou quando se tornou claro que podia formar um governo de maioria com o Centro Democrático Social-Partido Popular (CDS-PP). Garantiu que a substituição de José Sócrates, o rosto até agora protagonista das políticas de austeridade (ironicamente, só possíveis com o aval do PSD), marcava o início de uma nova fase de estabilidade e a abertura de «uma janela de esperança e de confiança no futuro». Infelizmente, por essa janela só vai entrar uma realidade cada vez mais dramática para a grande maioria dos cidadãos.

Será a realidade ditada pelas condições (inquestionadas) da intervenção externa. Mas não só: os representantes do neoliberalismo português vão aproveitar para dar um salto em frente no seu programa, sem resolverem nada do que causou a dívida soberana e sem a pagarem − como eles bem sabem, a reestruturação é inevitável. A crise da dívida vai ser usada para destruir serviços públicos e funções sociais do Estado, para privatizar as partes lucrativas de muitas empresas (algumas totalmente), para tornar a fiscalidade mais cega e regressiva, para cortar prestações sociais, para flexibilizar as relações laborais e os despedimentos, para diminuir salários e pensões.

Tudo isto para operar uma inédita transferência de dinheiro e de poder para privilégios e interesses privados em detrimento do público. Sem qualquer embaraço ou hesitação perante o crescente fosso das desigualdades socioeconómicas que nos próximos anos vão aumentar entre os cidadãos mais ricos e os mais pobres em Portugal, e entre os Estados mais ricos e os mais pobres na União Europeia. Vai ser muito fácil compreender os verbos por trás dos adjectivos, o processo de construção política por trás de um ponto de chegada: «rico» é quem foi enriquecido; «pobre» é quem foi empobrecido.

Pedro Passos Coelho, como todos os que, em Portugal e na Europa, são instrumentos da austeridade, está menos preocupado com o fardo que a dívida vai representar, durante muitos anos, para as populações e os países mais frágeis do que o está com o fardo que Portugal pode representar para os credores desse (lucrativo) empréstimo. É seu objectivo, como afirmou no mesmo discurso, «poder dar a todos aqueles que nos observam do exterior a garantia de que Portugal não pretende ser um fardo para o futuro que onere outros países que nos emprestaram meios de que nós precisávamos hoje para fazer face às nossas responsabilidades e os nossos compromissos».

Já não haverá muitas pessoas que ignorem que este caminho não permite, ao contrário do que afirmou o líder do PSD, «honrar o compromisso» do pagamento da (usurária) dívida, nem «retirar Portugal da ajuda externa» (que tem tudo de exploração e nada de ajuda). Mas enquanto se afirma a vontade de «voltar a conquistar a confiança dos mercados em Portugal» presta-se vassalagem a quem importa, o sector financeiro, e usa-se essa dependência (laboriosamente construída) para justificar o verdadeiro fardo, o que continuará a esmagar os cidadãos.

Como compreender o comportamento destes cidadãos a 5 de Junho? Enquanto uns decidiram abster-se, a níveis inéditos em eleições legislativas (41,18%), outros votaram, muito maioritariamente, para reforçar uma representação parlamentar que apoia a austeridade − seja esse apoio por entusiasmo convicto ou por consentida impotência. Este resultado eleitoral é um novo fardo e exige profunda reflexão de todos os que criticam as medidas de austeridade. Não por erro de análise. Infelizmente, tudo indica que o acerto das análises formuladas a respeito das causas da crise e das consequências da resposta austeritária não vai ser contrariado pela realidade, nem aqui nem noutros países afectados.

No Le Monde diplomatique vamos continuar a reservar um espaço importante à crítica desta mais recente mutação do pensamento único que é o austeritarismo, destacando os mecanismos de política económica e social através dos quais ele funciona em Portugal, na União Europeia e noutros pontos do mundo. Juntamos a esta abordagem uma perspectiva histórica, devedora das análises que fazemos há décadas, em particular desde que as instituições fundamentais da globalização neoliberal (FMI, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio) começaram a impor a países de vários continentes os seus planos de ajustamento, juros das dívidas, planos de privatização e demais leis que só olham aos lucros.

Sabemos que a contribuição que damos para enriquecer o conjunto de análises e ideais disponíveis é feita num quadro mediático muito assimétrico e desfavorável ao pluralismo. Todos os actores que, nos mais diversos campos de actuação (político, sindical, partidário, social, cultural, de voluntariado, etc.), procuram caminhos não hegemónicos conhecem dificuldades parecidas quando tentam comunicar os seus pontos de vista.

Mas, mesmo quando essa comunicação consegue furar algumas barreiras, descobre-se que para haver transformações não basta existirem análises acertadas e ideias alternativas disponíveis. Tal como não resulta de a maioria das pessoas estarem a viver mal, cada vez pior, que acreditem na possibilidade de soluções políticas alternativas. Talvez se possa até dizer que quanto maior é o medo do futuro, quanto mais ele resulta de uma percepção correcta da realidade, mais os cidadãos precisam que a esperança capaz de se sobrepor a esse medo tenha contornos nítidos e mostre que, além de ter razão, vai pôr essa razão em prática.

Nestas eleições isso não aconteceu. Entre os que ficarão na oposição, uns não mostraram ter soluções para a sustentabilidade financeira do Estado social que não implicassem cedências de universalidade, gratuitidade e qualidade na prestação dos serviços; outros não apresentaram planos robustos de convergência que contrariassem a fragilidade estratégica que tem contribuído para arredar as esquerdas da governação. Convencidos de que a austeridade era um dado do problema a que não iriam fugir, os eleitores responderam de uma forma que vai aprofundar a austeridade. A democracia continua a ser um campo de aprendizagem, mesmo que dolorosa.

Cabe agora a todos, e desde logo aos já participam em associações, sindicatos e demais movimentos populares, encontrar os espaços de convergência em torno das questões essenciais que vão continuar a desafiar a capacidade cidadã de defender o bem comum: a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde, o sistema de Segurança Social, as leis laborais e tantas outras. Estas pontes, já se sabe, são mais fáceis de criar fora dos períodos em que há eleições (nestas só não se divide o que já lá chegou unido). Mas não se perca demasiado tempo: esta crise encurta ciclos eleitorais quando menos se espera.
 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Lido por aí... # 17


Sem rodeios, os resultados das eleições legislativas constituiram uma séria derrota para a esquerda, nomeadamente para o Bloco de Esquerda.
Apesar do contexto em que as eleições foram disputadas fazer prever um recuo nos resultados do Bloco, a dimensão deste recuo obriga todos os seus dirigentes, aderentes e apoiantes a uma aprofundada reflexão. 
Não é possível enterrar a cabeça na areia quando, face às legislativas de 2009, o Bloco perde mais de 250.000 votos e vê o seu grupo parlamentar reduzido a 8 deputados...
No entanto, apesar de defendermos a realização de um amplo e necessário debate interno, recusamo-nos a transformar a leitura do resultado eleitoral numa luta intestina que visa responsabilizar Francisco Louçã pelo descalabro do passado domingo.
Da mesma forma, repudiamos  os argumentos de todos aqueles que, à esquerda e à direita, pretendem vislumbrar neste resultado a enémisa certidão de óbito do Bloco de Esquerda. 

Certamente que voltaremos, de forma mais aprofundada,  a abordar este tema. Até lá, parece-nos que  o texto que Fernando Rosas assina hoje no Esquerda.net, "Seis notas pessoais sobre os resultados do Bloco de Esquerda", constitui um bom ponto de partida para a análise/discussão que urge efectuar:

1. A derrota do Bloco nas eleições legislativas é suficientemente expressiva para dispensar tergiversações. Ela é da responsabilidade da direcção do BE no seu conjunto e devemos discuti-la colectivamente com seriedade, dentro do Bloco e com os seus simpatizantes, com o espírito de reforçar a nossa unidade em torno das políticas que nos habilitem para os duríssimos combates que temos pela frente. O BE perdeu uma batalha e deve preparar-se para vencer na guerra. As derrotas, quando bem analisadas, ensinam-nos seguramente mais do que as vitórias.
 
2. Do meu ponto de vista, a esquerda portuguesa e o BE em particular, à semelhança de situações similares em outros países europeus em crise, não conseguiu contrariar a vaga do voto do pânico, do voto na ilusão de uma solução, de um acordo, que, mesmo com algum sacrifício, há-de trazer, ao fim e ao cabo, o regresso à normalidade do emprego, do salário, da pensão, da renda da casa. Um voto que quer ver no acordo com a Troika – cujo significado foi deliberadamente ocultado na campanha pelos partidos seus subscritores – uma tábua de salvação face ao desastre iminente. E que puniu os que “ficaram de fora”, os que “não podiam influenciar”, os que pareciam não ter nada para lhes dar quando – dizia-se – a partir de Junho nem dinheiro para os ordenados havia. Esta visão foi, aliás, massivamente difundida pelos media numa campanha ideológica sem precedentes de “irresponsibilização” (“caloteiros”, marginais da política, radicais, indignos da confiança do povo aflito…) do BE e das suas propostas alternativas, aliás por nós sistematicamente apresentadas e bem defendidas.
 
3. Apesar de o BE, na minha opinião, ter conduzido, do ponto de vista do discurso político, uma das melhores campanhas políticas eleitorais da sua curta história (propositiva, pedagógica, realista, contida), e apesar do empenho dos seus militantes e apoiantes por todo o país, isso não foi suficiente para conter a vaga do voto na “segurança” e no mal menor. E por aí perdemos milhares de votos populares até para o PSD e alguns para o PP. A gravidade e extensão catastrófica da presente crise empurraram o voto do eleitorado popular flutuante para o refúgio aparente da “segurança” e da “protecção” da direita e dos seus tutores externos da Troika. A impopularidade imensa de Sócrates e do governo PS fez o resto.
 
4. O voto útil no PS, alimentado pelas sondagens que durante semanas davam um “empate técnico” com o PSD, naturalmente também funcionou, sobretudo em certas margens mais politizadas do nosso eleitorado flutuante. Não me parece, contudo, que tenha sido o factor determinante. Tal como a abstenção, igualmente, penalizou sobretudo a esquerda. O PCP, escorado no seu aparelho sindical e autárquico, com um eleitorado tradicionalmente fixado, defendeu com mais eficácia o seu espaço social e político de sempre e até algum voto de protesto. Mas creio que a situação que originou esta grande viragem à direita respeita a algo de mais vasto e profundo. É claro que podemos agarrar-nos, também, à discussão de algumas decisões tácticas que o BE nos últimos meses (presidenciais, moção de censura) e da sua possível influência nestes resultados. Sei que uma ou outra opção originaram dúvidas e oposições de militantes e votantes no BE. Mas creio que a extensão das deslocações de votos indicam com segurança que elas são movidas por opções que em muito ultrapassam os círculos mais politizados e informado em redor do Bloco eventualmente influenciáveis por tais escolhas. É para a natureza política e social do novo ciclo político que devemos olhar. E aprender.
 
5. O coro dos comentadores da direita parece querer transformar o rescaldo eleitoral num ajuste de contas raivoso com Francisco Louçã. Não se iludam. A direita quer duas coisas: silenciar o porta-voz desta esquerda subversiva e firme na denúncia da ordem estabelecida e, com isso, sonha mudar a cor do BE. Fingem não perceber que neste partido, em lutas desta envergadura, não há responsabilidades individuais. Nem nas vitórias, nem nas derrotas. Creio que é preciso sabermos ser nós, colectivamente, a fazer este balanço sempre com o objectivo de atingir uma unidade superior em torno de uma política adequada. O balanço das eleições tem de se fazer não nos jornais mas nos órgãos democraticamente eleitos pela Convenção. É a diferença entre ser a direita a fazê-lo ou o nosso colectivo do BE.
 
6. Mesmo nesta situação excepcionalmente difícil e complexa, alvo de um ataque ad odium e concertado sem precedentes, o resultado do BE demonstra que é um partido seguramente enraizado em sectores importantes do povo que de Norte a Sul do país continuaram a fazer dele o seu partido e a sua voz. Ao contrário do que os plumitivos e comentadores da direita voltaram excitadamente a anunciar, o BE perdeu, recuou, mas aguentou o embate. Tem raízes que esta tempestade não quebrou nem romperá. É agora altura de balanço e de luta. Com uma certeza. Nos duros combates que se avizinham, nas difíceis condições que temos pela frente, os trabalhadores, os jovens, os desempregados, os pensionistas, os precários, sabem onde nos encontrar: na primeira linha, dentro e fora do parlamento, a defender os seus direitos, a combater a barbárie neoliberal, a batalhar pelo socialismo. É assim. Quem vem de longe e quer ir para mais longe ainda, não desfalece.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Para acabar a noite eleitoral...

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Sérgio Godinho - "Cão Raivoso"

Mais vale ser um cão raivoso
do que um carneiro
a dizer que sim ao pastor
o dia inteiro
e a dar-lhe de lã e da carne e da vida
e do traseiro
mais vale ser diferente do carneiro
um cão raivoso que sabe onde ferra
olhos atentos e patas na terra.

Viva o cão raivoso
tem o pelo eriçado
seu dente é guloso
e o seu faro ajustado
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado.

Mais vale ser um cão raivoso
que um caranguejo
que avança e recua e depois
solta um bocejo
e que quando fala só se houve a garganta
no gargarejo
mais vale não ser como o caranguejo
um cão raivoso que sabe onde ferra
olhos atentos e patas na terra.

Viva o cão raivoso
tem o pelo eriçado
seu dente é guloso
e o seu faro ajustado
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado.

Mais vale ser um cão raivoso
que uma sardinha
metida, entalada na lata
educadinha
pronta a ser comida, engolida, digerida
e cagadinha
Mais vale ser diferente da sardinha
um cão raivoso que sabe onde ferra
ferra fascistas e chama-lhe um figo
olhos atentos e patas na terra.

Viva o cão raivoso
tem o pelo eriçado
seu dente é guloso
e o seu faro ajustado
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado.

Mais vale ser um cão raivoso
dentes à mostra
estar sempre pronto a morder
e a dar resposta
a toda e qualquer podridão escondida
dentro da crosta
dentro da crosta das belas ideias
gato escondido de rabo de fora
dentro da crosta das belas ideias
gato escondido de rabo de fora.

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domingo, 5 de junho de 2011

Entre nós e as palavras # 24


compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
não compra não come não caga morre

Alberto Pimenta


(imagem: ±MaisMenos±)

Hoje, muda de canal e troika-lhes as voltas. NÃO TE ABSTENHAS, VOTA NA ESQUERDA!

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Nós já votámos. E tu, do que estás à espera?

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Hoje, troika-lhes as voltas. NÃO TE ABSTENHAS, VOTA NA ESQUERDA!

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Comunicado de Imprensa – Violência Policial no Rossio

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"Mas se um dia / os fascistas no poder / se transformarem em balas perdidas na multidão, / nós sairemos p'rá RUA! / Nós seremos mais fortes! / Nada nos calará! / Nada nos derrubará!"

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A poucas horas das eleições e após a carga policial ocorrida no Rossio, só nos apetece ouvir isto:



"Juramento Sem Bandeira" - Pop Dell'Arte (João Peste)

Eu juro, eu juro
que não temo a morte,
temo a solidão.
As nossas canções soam mais forte
nesta podridão.
Eu juro!

Auschwitz não é o futuro!
Alô Rio Line
Todos os poetas
estão do nosso lado!

Eu juro que um dia
todos os polícias se transformarão em estrelas de rock!
E que todas as fardas
se confundirão com luzes de neon em cidades sem nome!
E que Marc Bolan
ressuscitará por detrás dum écran gigante de video!
E que em todas as ruas se dançará ao som de Lou Reed
(hey babe, take a walk on the wild side ...)

Mas se um dia
os fascistas no poder
se transformarem em balas perdidas na multidão,
nós sairemos p'rá RUA!
Nós seremos mais fortes!
Nada nos calará!
Nada nos derrubará!
Eu juro!
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Se nos negarem o Artigo 45º, responderemos com o Artigo 21º da Constituição da República Portuguesa

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Artigo 45.º
(Direito de reunião e de manifestação)

1. Os cidadãos têm o direito de se reunir, pacificamente e sem armas, mesmo em lugares abertos ao público, sem necessidade de qualquer autorização.

2. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de manifestação.


Artigo 21.º
(Direito de resistência)

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

sábado, 4 de junho de 2011

Isto é só o início...



A "democracia verdadeira" demonstrou hoje, em jeito de aviso para o futuro, que não permite mais perturbações ao estado geral de bovinidade.
 

Os que se ocultam sob as fardas azuis da Polícia Municipal e do Corpo de Intervenção, têm rosto e  nome. Chamam-se António Costa, José Sócrates, Passos Coelho, Paulo Portas, Miguel Sousa Tavares, Fernanda Câncio, Helena Matos, Irene Pimentel, José Manuel Fernandes, Cavaco Silva...
Muitos deles têm demonstrado, na comunicação social e em blogues, a sua intolerância face ao que se tem passado na baixa lisboeta. Hoje, a sua concepção de "democracia" materializou-se em violência policial, bastonadas e detenções.
 

Amanhã, quando estivermos sós perante o boletim de voto, convém que não nos esqueçamos do que hoje aconteceu no Rossio.
Amanhã teremos a oportunidade de ripostar, com a força de um voto. E se tal não for suficiente, as ruas voltarão a ser nossas...


(Fotografias: Mário Cruz / Lusa

Lido por aí... # 16

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Após uma campanha eleitoral em que PS, PSD e CDS se furtaram à discussão das grandes questões políticas e onde, mais uma vez, a comunicação social secundarizou ou ignorou as propostas e iniciativas dos partidos de esquerda, é fundamental que exerçamos o direito de voto conscientes do que está em causa nestas eleições legislativas.
Neste inútil dia de reflexão, sugerimos por isso a leitura de um texto de Miguel Portas ("O regime", publicado ontem no Esquerda.net), onde se aborda a importância da participação de cada um de nós nestas eleições e se sintetiza o que verdadeiramente se decide amanhã nas urnas:

1. O que está em causa nesta eleição é, desde logo, um programa de governo – o da troika. Desta vez, não há lugar ao habitual “prometo mas não cumpro”. Aquilo é mesmo um programa com medidas rigorosamente calendarizadas. Apesar disso, só a esquerda o discutiu. O tripartido que assinou o Memorando de cruz, mesmo desconhecendo o seu preço em juros, fez tudo o que pôde para esconder dos eleitores o elenco das malfeitorias que subscreveu. Só por isso não merecem o seu voto.

2. Ao contrário do que se possa pensar, não há nenhuma questão de governo nesta eleição. O programa da troika foi escrito e decidido em Bruxelas, sob conselho do FMI e do Banco Central Europeu, o nosso principal credor. Esse programa será diariamente monitorizado em Bruxelas e fiscalizado em Lisboa a cada três meses. Chamar “governo” à administração local responsável pela sua execução é no mínimo exagerado. Classificar de “primeiro-ministro” a criatura que irá a despacho, é, no mínimo, uma piada de mau gosto. Só surpreende como ainda há quem se candidate a tristes figuras. Mas isso é porque sempre existiram figuras tristes. Eles, os do meio, não merecem o seu voto. Não merecem, sequer, metade dos votos que têm obtido.

3. Na verdade, temos uma questão de regime, o que é bem mais do que uma questão de governo. Quem decide não vai a votos, antes se plebiscita através dos votos nos partidos colaboracionistas. Quem decide não é controlado, controla. Quem decide, abre e fecha a torneira das tranches de financiamento em função das condições políticas que considere úteis ou necessárias. Quem decide, numa palavra, são os credores. O regime saído desta relação de forças é um poder colonial. Há quem, em Bruxelas, deseje a nomeação de um alto-comissário, ou seja, de um “governador”. Não é preciso. Um poder sem rosto é bem mais eficaz. A política reduzida à burocracia atinge o seu esplendor: vende-se a si própria como técnica. Neste regime, o soberano é o eurocrata. Mas ele ainda precisa dos colaboracionistas para se legitimar. No dia 5 eles não merecem o seu voto.

4. A dificuldade desta eleição é com a abstenção. São muitos os que pensam não valer a pena ir votar porque já está tudo decidido. São homens e mulheres castigados pela crise, punidos pela vida, que desacreditam. São jovens condenados à precariedade, que lhes aparece como superior às suas próprias forças, ou idosos que vêm a vida a andar para trás e não encontram, dentro si, as energias para mais esta batalha. Todos, sem excepção, sabem que não irão votar contra si próprios. Mas todos, sem excepção, duvidam que valha a pena votar. O pior da troika, o pior do Protectorado é precisamente isto: pôr as pessoas a duvidar de si próprias e das virtualidades da democracia. Mas é precisamente esta a melhor razão para que ninguém lhes torne a vida mais fácil.

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