sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Em jeito de despedida de 2010 e para tomar balanço para 2011...

Ideias para 2011: derrotar Cavaco Silva nas eleições presidenciais



E antes que o ano termine, vale a pena ler os textos de Sérgio Lavos e de Daniel Oliveira, "A esfinge de areia" e "Os silêncios e as palavras de Cavaco", ambos publicados no Arrastão:

A esfinge de areia

Cavaco Silva, o presidente que cedeu ao frete de ser candidato, perdeu claramente os quatro debates para as presidenciais. Se por acaso as televisões tivessem convidado José Manuel Coelho para a festa, também teria grandes probabilidades de perder. Alguém que não conhecesse o panorama nacional e o visse ontem frente a Manuel Alegre com o som do televisor em baixo poderia jurar estar perante um homem com um longo caminho a percorrer nas sondagens, alguém crispado, lutando furiosamente para se manter à tona de água no combate eleitoral. Alegre, em contraste, exibiu à vontade e uma calma surpreendente, soberana. Cavaco, o estadista lusitano, o homem da providência nacional, foi empurrando para o canto do ringue sucessivamente por Francisco Lopes, Fernando Nobre e, humilhação suprema, Defensor Moura. Manuel Alegre limitou-se a gerir os pontos fracos: os amigos no BPN e as acções que aqueles lhe venderam, o devaneio das escutas-fantasma, a tibieza perante chefes-de-estado de países com uma economia emergente. Alegre poderia, inclusive, ter ido muito mais longe: a insistência numa pose acima da sujeira da política é a principal característica de Cavaco, e é não por ter escolhido deliberadamente essa pose, mas por ser obrigado a isso, por não poder ser de outro modo. São evidentes as dificuldades na oratória, na exposição de ideias, na coerência do discurso. Poderíamos discutir a pertinência destas qualidades, se pensarmos no modelo do político moderno, brilhante na imagem e vazio nas ideias (Tony Blair será um dos melhores exemplos). O problema é que esta ausência de qualidades de tribuno nada esconde, nem o brilhantismo do técnico esforçado nem a competência do ordeiro burocrata; este brilhantismo é uma ilusão, uma crença infundada das almas torturadas dos seus apoiantes. O tempo que passou à frente do governo do país é a prova: um consulado de dez anos em que se limitou a aplicar o rio de fundos europeus em áreas de reduzida importância estratégica, a agravar o peso do Estado até se tornar incomportável para a dimensão do país, a lançar as raízes das dificuldades estruturais que temos sentido nos últimos anos. Cavaco Silva é o espelho da nossa alma: baço, aplicado mas sem rasgos, calando-se perante poderes mais fortes, um clone enfraquecido ou uma memória distante do português provinciano e poupadinho que tomou conta dos destinos do país durante quarenta anos, o Salazar do descontentamento da pátria e da alegria triste de muitos dos mais fervorosos adeptos desta pálida cópia. O silêncio de Cavaco, tantas vezes elogiado pelos seus apaniguados, não oculta uma qualquer sabedoria salvífica - nem os poderes do presidente lhe permitiriam isso, ao contrário do que ele nos quer fazer crer; o silêncio de Cavaco é uma máscara que cobre o vazio de ideias de quem nada tem de original para dizer. E basta um qualquer Defensor Moura (e escrevo isto com todo o respeito) para o expor. Mas sim, ele lidera as sondagens. E a única maneira de evitar uma maioria de direita, uma hidra bicéfala Passos Coelho/Cavaco, é não votar nele. Nós não o merecemos; muito mais, merecemos muito mais.


Os silêncios e as palavras de Cavaco

Ainda o debate entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. Um dos poucos momentos que deu que falar foram as críticas do Presidente à Caixa Geral de depósitos na gestão que está a fazer do BPN. A comparação que fez com a situação inglesa, quando se está, em Portugal, a falar de um caso de polícia, deixa claro para todos que o suposto rigor técnico de Cavaco não tem correspondência com a realidade. Já tinhamos observado isso mesmo quando, com o maior dos descaramentos, explicava, no tom professoral do costume, que o negócio da ponte Vasco da Gama não era uma Parceria Público-Privado.

Quando os seus amigos andavam a brincar com o fogo no BPN, Cavaco Silva ficou calado. Quando o caso rebentou, ficou em silêncio. Quando o seu ex-ministro Dias Loureiro mentiu ao Parlamento veio em sua defesa para o tentar segurar no Conselho de Estado. Quando o BPN foi nacionalizado, deixando de fora a SLN, concordou e calou-se.

Quando resolve falar Cavaco Silva? Agora. Para criticar quem afundou o BPN num buraco de pelo menos cinco milhões de euros? Não. Para assumir que Dias Loureiro e Oliveira e Costa tiveram um comportamento vergonhoso? Não. O Presidente abre a boca pela primeira vez sobre o caso BPN para atacar quem, mal ou bem, recebeu o presente envenenado.

Cavaco Silva não consegue disfarçar a sua dificuldade em falar sobre este caso de mãos livres. O descaramento desta acusação - que demonstra também a sua irresponsabilidade institucional - prova que não é, nesta matéria, um homem livre. Um dia saberemos porquê.


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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Palco do Reviralhos # 2


Radiohead – Live at Glastonbury Festival (2003)


No rescaldo do debate de ontem



No rescaldo do debate de ontem, entre Cavaco Silva e Manuel Alegre, partilhamos dois textos certeiros sobre o actual presidente da república.

Luís Branco, no texto "Tudo bons rapazes" (publicado no blogue Minoria Relativa e também no Esquerda.net), retoma o tema, ainda por esclarecer, das acções da SLN adquiridas por Cavaco Silva:

No meio dum debate irritado com Manuel Alegre, Cavaco Silva responsabilizou a administração do BPN já nacionalizado pelo buraco gigantesco para que o banco foi conduzido. Mas não disse uma palavra sobre quem teve responsabilidades na administração de uma empresa que durante anos foi gerida como plataforma de operações criminosas para dar lucros milionários aos amigos da SLN, mesmo debaixo do nariz da supervisão bancária.

De facto, não se imagina o que poderia dizer Cavaco sem ser em abono de personalidades como Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho, Abdool Vakil, Miguel Cadilhe, entre tantos outros distintos apoiantes da recandidatura do homem que os reuniu na vida, na política e nos negócios.

Estamos a falar do mesmo Cavaco Silva que não desconfiou de nada quando a SLN lhe comprou em 2003 as acções que lhe tinha vendido dois anos antes, garantindo-lhe uma mais valia de 140%. Pelos vistos, Cavaco nunca soube que fez parte dum esquema que foi usado durante dez anos para beneficiar os amigos do BPN, que assim ganhavam muito dinheiro em pouco tempo e com risco zero.

Risco zero para eles, claro. Hoje é o país inteiro que está a pagar, graças ao PS, ao PSD e ao próprio Cavaco, que promulgou a lei para nacionalizar o que toda a gente sabia ser uma caixa de surpresas muito desagradáveis, cheia de negócios como o de Dias Loureiro em Porto Rico, com o dinheiro sempre a esfumar-se em triangulações entre off-shores de que ninguém conhece os proprietários.

Cavaco não pode fazer de conta que não sabia de nada disto. Mas conta com a "imprensa suave" que não o obriga a avivar a memória.


Manuel António Pina, no artigo de opinião "Fazer pela vidinha" (publicado no Jornal de Notícias), aborda a subserviência de Cavaco Silva à agiotagem dos mercados, como ficou bem patente nas posições defendidas durante o debate de ontem:

O "sensato" conselho de Cavaco Silva para comermos e calarmos de modo a que "os nossos credores" não se zanguem connosco e nos castiguem com juros cada vez mais altos espelha uma cultura salazarenta de conformismo que, sendo muito mais antiga que Cavaco, ele representa na perfeição, até nos seus, só na aparência contraditórios, repentes de arrogância.

Quando Cavaco nos recomenda que amouchemos pois "se nós lhes [aos 'nossos credores'] dirigirmos palavras de insulto, a consequência será mais desemprego para Portugal", tão só repete, adaptada à actual circunstância, a "sensata" e canónica fórmula do "Manda quem pode, obedece [ no caso, cala] quem deve".

Trata-se de uma atávica cultura em que a vida é vidinha, a crítica deve sempre ser "construtiva" e colaborante, os trabalhadores, por suave milagre linguístico, se tornam "colaboradores" (e se colaboracionistas melhor ainda) e servilismo e acriticismo são alcandorados a virtudes cívicas. Porque é assim que se faz pela vidinha, de joelhos.

Estejamos, portanto, gratos às "companhias de seguros, fundos de pensões, fundos soberanos, bancos internacionais e cidadãos espalhados por esse mundo fora" que nos emprestam dinheiro a juros usurários, pois eles apenas querem o nosso bem. E, como o bom Matateu numa famosa entrevista a Baptista Bastos, digamos tudo o que quisermos, excepto dizer mal, "porque [cito de cor] Matateu não diz mal de ninguém".


Cavaco Silva poderá insistir na velha táctica do silêncio, no gasto papel de virgem ofendida ou continuar a remeter todos os esclarecimentos para a página da presidência da república (como ontem voltou a fazer), mas não poderá esquivar-se ao confronto e ao escrutínio político (que faz questão em apodar sempre de ataques pessoais).

Apesar da colaboração dócil e cabisbaixa da comunicação social, Cavaco Silva não é para nós um vencedor antecipado das eleições do dia 23 de Janeiro.
Da nossa parte, insistiremos em não lhe dar tréguas e continuaremos a lutar pela sua derrota nas próximas eleições presidenciais.


(imagem retirada daqui)

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cinematógrafo do Reviralhos # 5


O Homem da Câmara de Filmar (1929)




Título: Chelovek s kino-apparatom - O Homem da Câmara de Filmar (1929)

Realização: Dziga Vertov

Música: Michael Nyman

Duração: 88 minutos




terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Lido por aí... # 6


Daniel Oliveira volta a assinar um excelente texto sobre Cavaco Silva, "As mulheres de Cavaco" (publicado no Expresso Online e no Arrastão), que merece uma transcrição integral:

No debate com Defensor Moura - em que o actual presidente, sem estar protegido por discursos escritos, demonstrou até onde pode ir a sua arrogância -, coube a Cavaco Silva o minuto final. Dedicou-o às mulheres, que nesta quadra festiva estão em destaque. Não fosse a virgem Maria modelo para todas as senhoras sérias e a família o centro das suas vidas.

Ao falar às mulheres, Cavaco fez-lhes um elogio. Pela sua participação cívica na vida em comunidade ? Não. Pelo papel crescente que vão tendo nas empresas, na Academia, na cultura, na política? Menos ainda. O elogio foi para as mães, esposas e donas de casa. Por cuidarem das crianças e fazerem milagres com o apertado orçamento familiar.

Quando Cavaco Silva fala o tempo anda para trás. Revela-se o líder paternal, que trata, com a serenidade dos homens ponderados, das coisas do Estado. Vigilante, protege-nos dos excessos. Nunca debate, porque o debate poderia dar a ideia de que ele navega nas águas sujas da polémica democrática. Ele é o consenso. Apesar de tudo o que sabemos, representa a honestidade no seu estado mais virginal. E para ser mais honesto do que ele qualquer um teria de nascer duas vezes e, supõe-se, duas vezes escolher Dias Loureiro como seu principal conselheiro político. A cada acusação responde sem resposta, porque ele está acima da crítica. A crítica a Cavaco é, ela própria, uma afronta à Pátria.

Mas o tempo volta para trás não apenas no olhar que tem de si próprio, mas no olhar que tem do País. Nesse País está, no centro de tudo, a família. E no centro da família está a mulher. Não a mulher que tem uma vida profissional relevante e é uma cidadã activa e empenhada. Mas a esposa e a mãe. É ela - quem mais? - que cuida dos filhos e gere as finanças domésticas.

Cavaco Silva não se engana. Esse país modesto e obediente - onde o chefe de família confia no líder que trata das finanças da Nação e na mulher ponderada que trata das finanças da casa - ainda existe. Ao lado de um outro, feito por uma geração que nasceu numa democracia cosmopolita. Onde os cidadãos têm sentido crítico e as mulheres têm vida fora do lar. Onde os homens também cumprem o seu papel nas coisas comezinhas da educação dos filhos e a gestão da economia doméstica também é obrigação sua. Onde os cidadãos não pocuram homens providenciais que os protejam do Mundo. O problema de Cavaco não é viver divorciado do País real. É haver uma parte desse país que lhe escapa.

Cavaco Silva recorda o que fomos: provincianos, medrosos, conservadores, ordeiros. E nós, como todos os povos, carregamos no que somos um pouco do nosso passado. O cavaquismo representa um Portugal que demora a dar-se por vencido. É o último estertor do nosso atraso. E o seu último minuto teve aquele cheiro insuportável a nefetalina. Aos mais velhos, que o reconhecem, dá segurança. Aos mais novos, a quem diz tão pouco, parece tão inofensivo como um avô que vem de outro tempo.

Há quem ache que Cavaco não é de direita. Engana-se. Cavaco é a única direita que realmente existe em Portugal: conservadora, tacanha, provinciana, caridosa e estatista. A outra, liberal, cosmopolita e tão pouco latina, se não se adaptar terá de esperar muito tempo pela sua vez. Passos Coelho, que representa tudo o que Cavaco despreza, irá descobri-lo muito mais cedo do que julga.

O Cavaco presidente e o Cavaco candidato


Alegando o contexto da crise, Cavaco Silva vangloriou-se que faria uma campanha eleitoral baratinha (apesar de ser, de entre as diversas candidaturas presidenciais, aquela que apresenta um orçamento mais elevado...), sem outdoors e com espartana  contenção de meios (para não chocar a populaça, que cada vez tem mais mês para menos salário...).

O que Cavaco Silva se esqueceu de anunciar ao país foi o facto da sua agenda presidencial ser a sua própria campanha eleitoral. O Cavaco presidente e o Cavaco candidato são um só, confundem-se e misturam-se em cada deslocação, em cada declaração à comunicação social, em cada acto público.

O Cavaco presidente passeia-se pelo país promovendo o Cavaco candidato, utilizando os meios ao dispor do seu actual cargo público para fazer a tal campanha eleitoral low cost que prometeu ao país.

Se o Cavaco candidato é confrontado num debate televisivo com algum assunto incómodo, mesmo que irrelevante para a maioria da população, eis que o Cavaco presidente coloca a Secretaria Geral da Presidência da República a prestar os devidos esclarecimentos (conferir a nota sobre a celebração do Dia de Portugal em Viana do Castelo, disponibilizada ontem em http://www.presidencia.pt/?idc=10&idi=50459).

No reino do auto-proclamado referencial da honestidade nacional certamente que tudo isto é normal, transparente e obviamente inatacável, como todas as outras questões que envolvem o Cavaco presidente e o Cavaco candidato (não fosse aquela "pequena" questão, ainda por esclarecer, das acções da SLN/BPN...).

Ao contrário de nós, o Cavaco presidente não vê qualquer inconveniente em utilizar o site da Presidência da República para fazer a campanha eleitoral do Cavaco candidato.
Mas o problema deve ser nosso, que continuamos sem perceber onde acaba um Cavaco e começa outro e que temos esta inamovível aversão política contra ambos.

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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Entre nós e as palavras # 11


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais nova
que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto - "na hora de pôr a mesa, éramos cinco:"

 
(Fotografia: André Kertész - "Mondrian’s Pipe & Glasses", 1926)
 
 
 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

The Nightmare Before Christmas


Aviso: este vídeo contém cenas eventualmente chocantes (não, não nos estamos a referir à assustadora floresta de árvores de natal)


E tu, queres mesmo aturar estas duas personagens por mais 5 anos?

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Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és...



“Dias Loureiro garantiu-me solenemente que não cometeu qualquer irregularidade nas funções que desempenhou em empresas ligadas ao grupo BPN. Não tenho qualquer razão para duvidar da sua palavra”.

Cavaco Silva, Presidente da República, a 25 de Novembro de 2008, após reunião com Dias Loureiro

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

E que tal se o candidato Cavaco Silva nos explicasse este "pequeno negócio entre amigos"?



O grupo SLN/BPN foi durante 10 anos um complexo político-financeiro que fazia circular e distribuía muitos milhões de euros a alguns administradores, accionistas e grandes clientes. Tratava-se de uma elite privilegiada e escolhida pela cor político-partidária, no caso concreto, o laranja do PSD cavaquista. 

Estes financiamentos de favor assumiram diversas modalidades, entre as quais o pagamento de comissões e prémios, empréstimos sem garantias e muito menos pagamento e a compra e venda de acções. 

No caso da compra e venda de acções – como o caso revelado nestas páginas - a administração da SLN convidava o futuro accionista a adquirir uns milhões de acções, sendo muitas vezes o próprio BPN a financiar a compra. Ao mesmo tempo, a SLN e o accionista subscreviam um contrato de promessa de recompra das acções pela SLN, no qual se definia à partida a mais-valia garantida ao accionista nesta segunda transacção, um lucro chorudo e sem qualquer risco, obviamente remunerado com taxas superiores às praticadas à época noutras aplicações financeiras. Enfim, bons amigos, bons negócios. 

Como a SLN não estava cotada em bolsa, o valor das acções nestas operações de compra, venda e revenda era determinado pela administração do grupo, pelo presidente Oliveira e Costa, um “esquema” sustentado em relações de favor entre gente amiga. 

Ao longo de 10 anos, foram muitos os que beneficiaram destes favores de Oliveira e Costa, desta forma muito fácil de “fazer dinheiro”, ganhando em pouco tempo muito dinheiro, sem correr qualquer risco. A comissão de inquérito ao BPN identificou vários destes felizes contemplados com a “generosidade” de Oliveira e Costa. A própria comunicação social relatou diversos casos, entre os quais o de Cavaco Silva e da filha, situações que continuam por esclarecer inteiramente. 

Em carta de 2003 à SLN, Cavaco «ordenou» a venda das suas acções, no que foi imitado pela filha, em cartas separadas endereçadas ao então presidente da administração da SLN, José Oliveira Costa. Este determinou que as 255.018 acções detidas por ambos fossem vendidas à SLN Valor, a maior accionista da SLN, na qual participam os maiores accionistas individuais desta empresa, entre os quais o próprio Oliveira Costa. 

Da venda resultaram 72 mil contos de mais valias para ambos. Cavaco não podia «ordenar» a venda das acções (porque não eram transaccionáveis na bolsa), mas apenas dizer que as queria vender, se aparecesse algum comprador para elas. Mas o comprador apareceu, disposto a pagar 1 euro e 40 cêntimos de mais valia por cada acção detida pela família Cavaco, quando as acções nem cotação tinham no mercado. 

Sobre esta e outras operações, persistem por responder algumas interrogações pertinentes:

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domingo, 19 de dezembro de 2010

Reviralhos Sound System # 14 (edição especial - centenário do nascimento de Jean Genet)


David Bowie - "The Jean Genie" (1972)




Pop Dell'Arte - "Querelle" (1987)




 CocoRosie & Antony Hegarty - "Beautiful Boyz" (2004)


No centenário do nascimento de Jean Genet


Jean Genet foi poeta, prosador, dramaturgo, autor de uma única obra cinematográfica. Filho de pai incógnito, abandonado pela mãe, escarrou nas instituições, no poder, na ordem, na moral, na autoridade, na religião. Fez a elegia dos excluídos e elevou a heróis os protagonistas da sarjeta social. Glorificou criminosos, ladrões, putas, chulos, as margens da sociedade. Conheceu os cárceres, os corpos dos homens, o sexo visceral. Foi amado por uns (Sartre, Beauvoir, Cocteau, Giacometti…) e odiado por quase todos os outros. Foi anti-colonialista, apoiante dos palestinianos, dos Black Panthers, dos Baader-Meinhof. Inspirou encenadores (as suas peças continuam a ser regularmente encenadas, incluindo em Portugal), músicos (Pop Dell’Arte, David Bowie, CocoRosie…), realizadores (Fassbinder, Todd Haynes…), escritores (Al Berto, Edmund White…). Subverteu, subverteu sempre.

José Manuel dos Santos publicou ontem uma admirável crónica sobre Genet (revista Atual, jornal Expresso, edição de 18 de Dezembro), que sintetiza de forma perfeita a importância literária da sua obra:
Na sua escrita (“Escrever é levantar todas as censuras”), o mais lírico e refinado francês vive com o mais duro e vulgar calão. Na sua teologia, as virtudes são o roubo, a traição e a homossexualidade (“Um macho que beija outro macho é um macho a dobrar”), vivida como transgressão e castigo. Excluído pelo nascimento, fez da exclusão o seu contra-ataque: o excluído exclui. Traído, trai. Tudo se inverte na sua contramoral: o pecado é a virtude e o profano é o sagrado. Genet é o santo do mal (“A santidade é forçar o Diabo a ser Deus”).
“Roubo” em francês diz-se vol e é também “voo”. Neste homem sem céu nem terra, mas com muitos corpos e muitas almas, o baixo e o alto juntam-se. As palavras roubam-se e acendem-se para queimar. Os corpos voam na fuga e no amor. Aquele para quem a poesia e o crime são irmãos, disse: “A minha vitória é verbal e devo-a à sumptuosidade das palavras.” Sem Genet, a literatura saberia menos dos homens – e de si.

No dia em que se celebra o centésimo aniversário do nascimento de Jean Genet (19 de Dezembro de 1910 – 15 de Abril de 1986), recordamos a sua obra eventualmente menos conhecida, a curta metragem “Un Chant d’Amour” (1950).
Única aventura cinematográfica de Genet, responsável pelo argumento, montagem e realização, apenas conheceu a sua estreia em 1975 e continua, até hoje, relegada a um relativo desconhecimento público. Descubram-na, revejam-na e façam o mesmo em relação à obra literária de Jean Genet.







sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sabe bem pagar tão pouco (ou como os amigos de Cavaco fogem ao fisco de Janeiro a Janeiro)



Depois da PT, da Portucel e da Semapa, chegou a vez da Jerónimo Martins anunciar o pagamento antecipado de dividendos aos accionistas do grupo de distribuição alimentar, proprietário dos supermercados Pingo Doce e Feira Nova. 

A decisão da Jerónimo Martins, aprovada em assembleia geral extraordinária e  tendo como único objectivo evitar o agravamento da tributação sobre os dividendos pagos pelas empresas, mais não é do que um novo episódio da fuga ao fisco (legal mas imoral) protagonizada pelos grandes grupos económicos.

No entanto, o caso é particularmente revelador quando analisamos a constituição do Conselho de Administração da Jerónimo Martins e nele encontramos nomes como Luís Palha da Silva (director de campanha de Cavaco Silva para as eleições presidenciais) ou António Borges (antigo vice-presidente do PSD e actual director do Departamento Europeu do FMI).

Que o actual presidente da república escolha alguém como Luís Palha da Silva para director de campanha, revela que Cavaco continua a escolher os seus amigos/colaboradores/apoiantes de entre o pior que a classe política e económica  produz.

Que nada disto embarace  Cavaco Silva, tal como nunca o embaraçou a relação privilegiada com Dias Loureiro, é revelador do seu carácter e do modo como encara a política e a causa pública...

Da próxima vez que Cavaco lhe peça sacrifícios em prol do combate à crise, pense nisto.
Da próxima vez que Cavaco lhe diga que os sacrifícios devem ser repartidos por todos, pense nisto.
E, acima de tudo, pense nisto antes de votar nas próximas eleições presidenciais.



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

WikiLeaks - a verdade é um conceito perigoso




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WikiLeaks - José Sócrates e Luís Amado mentiram



Se dúvidas ainda restassem, a notícia do El País, que tem por base mais um conjunto de documentos diplomáticos norte-americanos divulgados pela WikiLeaks, demontra inequivocamente que o governo português não só tinha conhecimento dos voos como os autorizou.

Se dúvidas ainda restassem, hoje temos as provas de que José Sócrates e Luís Amado mentiram.



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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O broche chinês


Porque será que depois de sabermos que a China irá reforçar o apoio financeiro a Portugal e perante o estado exultante de Teixeira dos Santos - "Saio daqui satisfeito (...) A China mostrou-nos claramente que acredita em Portugal" - apenas nos conseguimos recordar do broche chinês de João César Monteiro?

domingo, 12 de dezembro de 2010

WikiLeaks - coisas que José Sócrates gostaria que não soubéssemos






WikiLeaks - coisas que o BCP e o Governo gostariam que não soubéssemos



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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Petição - WikiLeaks: Parem a Perseguição


A Avaaz acaba de lançar uma petição denunciando a campanha de intimidação contra a WikiLeaks, perpretada por governos e empresas, considerando que a mesma constitui um ataque à liberdade de imprensa e à democracia.

A petição, que conta já com milhares de assinaturas de cidadãos de todo o mundo, poderá ser assinada aqui.

Memórias Afectivas III


John Lennon (09 de Outubro de 1940 - 08 de Dezembro de 1980)




Ser consequente


[...]

Para além do servidor disponibilizado pelo  Esquerda.net (acessível em http://wikileaks.liberdadedeexpressao.net/), existem já mais de 1000 espelhos alojados em diversos países, o que revela a existência de uma forte mobilização por parte de todos aqueles que se recusam a capitular perante as tentativas de silenciamento da WikiLeaks.

A isto chama-se ser consequente, o que só pode merecer o nosso aplauso.


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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Petição Para Uma Nova Economia



O Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz, juntamente com diversos professores e investigadores da área da economia e das ciências sociais, lançou uma petição que pretende ser não só ser uma tomada de posição contra as políticas neoliberais, preconizadas pelo governo português e pelos seus congéneres europeus e mundiais, mas também um contributo para a discussão em torno de modelos económicos alternativos aos que nos têm vindo a ser impostos:
[...]
A presente crise não se resolve com cortes nos salários, pensões ou redução da provisão de bens públicos (saúde, educação, prestações e serviços sociais), nem com maior tributação dos consumos populares e consequente redução do poder de compra dos estratos sociais menos afluentes. Ao invés, as chamadas “medidas de austeridade”, que vêm sendo preconizadas e, de algum modo, impostas pelas instâncias comunitárias, podem acentuar a crise e contribuir para menor crescimento da economia, mais desemprego e, indirectamente, maior desequilíbrio das contas públicas.
Não pode ignorar-se que a crise que se vive na União e em alguns dos países membros é reflexo da crise financeira global e da escalada especulativa que ainda não terminou e, por conseguinte, enfrentar a crise implica intervenção adequada e coordenada a nível mundial, nomeadamente no que toca à eliminação de paraísos fiscais, tributação fiscal sobre transacções financeiras, aperfeiçoamento das instâncias reguladoras e do funcionamento das empresas de rating, reformas dos sistemas bancários nacionais que assegurem transparência e controlo público do crédito, combatam as acções especulativas e imponham normas de responsabilidade e conduta ética.
Não só no plano global são indispensáveis reformas. Também a nível europeu, há que introduzir reformas profundas que permitam fazer face à vulnerabilidade da zona euro a qual resulta de uma excessiva confiança posta no mercado como regulador, quando estão em presença economias muito desiguais, com consequentes desequilíbrios nas relações intra e extra comunitárias.
Os modelos sociais europeus encontram-se sob ameaça e há razões para recear que grupos de interesse venham a fazer pressão no sentido do seu progressivo desmantelamento, forçando a redução dos direitos sociais dos trabalhadores e privatizando serviços de utilidade pública, como sejam os de saúde ou de educação. Uma tal tendência, a concretizar-se, não só constituiria um retrocesso civilizacional como teria como efeito a ainda maior concentração da riqueza e dos rendimentos com consequente risco para a democracia. O modelo social europeu carece de ser aprofundado e ajustado às novas realidades, nomeadamente no que respeita à evolução demográfica, mas nunca desmantelado ou enfraquecido, já que também é a base da possibilidade de economia próspera.
Do Banco Central Europeu espera-se um papel mais activo na ajuda a prestar aos países mais vulneráveis às acções especulativas - impedindo a inaceitável subordinação dos Estados aos mercados financeiros que actualmente se verifica - e na definição de uma política monetária que sirva de motor de crescimento da economia de toda a Zona Euro.
Também defendemos um sistema de tributação progressiva que seja concertado a nível europeu, de modo a evitar disparidades que fazem com que os fluxos económicos corroam as bases fiscais dos Estados. Defendemos a existência de uma estratégia de desenvolvimento para toda a UE e uma estreita articulação entre política orçamental e política monetária de modo a enfrentar o desemprego e garantir uma orientação eficiente dos recursos de capital para investimento produtivo e inovação em domínios estratégicos.
No plano da regulação financeira, se é justo esperar que no plano mundial se alcancem indispensáveis formas de regulação mais eficientes, tal não dispensa que no espaço europeu (e nacional) se introduzam normas prudenciais que acautelem devidamente os interesses dos pequenos aforradores e bem assim se adoptem medidas de prevenção e forte punição de operações dolosas e/ou especulativas.
O combate às desigualdades e à pobreza na UE deverá constar das prioridades das autoridades nacionais e comunitárias responsáveis pela política económica e o princípio da solidariedade subjacente aos tratados deveria levar ao estabelecimento de mínimos sociais e metas quantificadas e calendarizadas de redução da pobreza. Sabemos bem que, não só estão em causa princípios de justiça social, como também a pobreza e grandes desigualdades sociais constituem obstáculo ao próprio crescimento económico.
De igual forma, não é aceitável que, na UE, o número de desempregados seja tão elevado, nem que aumente o número daqueles que estão nessa situação por longos períodos. Os custos daí decorrentes afectam também a economia e constituem perda de recursos.
Uma coordenação eficaz das políticas económicas na UE, assim como a eliminação da rigidez monetária e orçamental da UE (Pacto de Estabilidade e Crescimento) deveriam evitar que, no futuro, o ónus do ajustamento em situação de crise recaísse, como actualmente, essencialmente, sobre os trabalhadores.
No que se refere ao saneamento financeiro, seria desejável que se implementassem sistemas de auditoria permanente às dívidas públicas, mas que aquela fosse complementada com uma vigilância atenta sobre o nível da dívida privada, sabendo-se como esta pesa no desequilíbrio das contas externas.
A auditoria deveria também incidir sobre as parcerias público-privadas, pelo peso que estas representam nos encargos futuros.
[...]

A petição pode ser assinada aqui, onde também poderá ser lido o texto integral da mesma.


domingo, 5 de dezembro de 2010

O regresso do Macartismo



A campanha contra a WikiLeaks, intensificada desde a divulgação de mais de 250.000 mensagens diplomáticas norte-americanas, tem-se revelado uma verdadeira  tentativa de imposição de censura política aos conteúdos difundidos na internet.

Os sucessivos ataques aos servidores da organização, as pressões políticas e a colaboração de empresas como a Amazon (que deixou de alojar nos seus servidores o site fundado por Julian Assange) e a Paypal (site de pagamentos online que deixou de processar doações, feitas através do seu site, à WikiLeaks), são sinais reveladores de uma verdadeira ameaça à liberdade de expressão e de informação.

A forma como os vários governos pactuam com a perseguição censória à WikiLeaks, aliada ao silêncio dos líderes políticos perante apelos à eliminação física de Julian Assange, revelam o ressurgimento de um novo Macartismo, desta vez à escala global.

Perante os acontecimentos destes últimos dias, os cidadãos do mundo terão necessariamente de se começar a questionar sobre o que lhes reserva este mundo orweliano, comandado por um grande censor pronto a eliminar todos aqueles que se recusem a abdicar da liberdade.



Entrevista a Julian Assange, fundador da WikiLeaks, legendada em português


Reviralhos Sound System # 13 (edição especial)


Astor Piazzola - "Adiós Nonino" (1960)



Kimmo Pohjonen - "Keko" (1999)



Kepa Junkera - "Bok Espok" (2001)



Danças Ocultas - "La Danse Idéalle" (2004) / "Dança II" (1996)


A austeridade é uma ideia perigosa


Amanhã realizar-se-á mais uma reunião do Eurogrupo, em Bruxelas, onde a situação de Portugal voltará a ser discutida.

O que certamente não constará na agenda da reunião dos ministros das Finanças da zona euro será a análise das consequências sociais  provocadas pelas  políticas de austeridade,  impostas pela UE, nem o visionamento deste vídeo do economista Mark Blyth:



sábado, 4 de dezembro de 2010

Inside Job - A Verdade da Crise



Sobre o documentário "Inside Job - A Verdade da Crise" já outros escreveram, nomeadamente Jorge Costa e Daniel Oliveira, pelo que não nos vamos alongar na sua análise.

O nosso único conselho é que o vejam.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vergonhoso




Se o sentido de voto da direita e da extrema-direita parlamentar era mais do que expectável, a inviabilização da proposta do PCP, por parte da bancada do PS, é simplesmente vergonhosa.
Apesar de há muito não esperarmos nada de um partido que de socialista apenas tem o nome, a votação de hoje demonstrou mais uma vez de que lado se posiciona o grupo parlamentar do PS.

Ao contrário do que ontem apelava José M. Castro Caldas, no Ladrões de Bicicletas, os deputados socialistas não se pouparam, na votação de hoje, à indignidade de institucionalizar a fuga ao fisco de quem mais pode.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dia Mundial de Luta Contra a Sida



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Entre nós e as palavras # 10



Entre nós e a palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte     violar-nos     tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e a palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas     portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e a palavras, surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem elegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violino
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os abraços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e a palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever de falar

Mário Cesariny - "You Are Welcome To Elsinore"


(Fotografia de Adriana Oliveira)



Colaboracionista uma vez, salazarento sempre

Um cidadão exemplar, como Aníbal Cavaco Silva, está sempre do lado do poder.
Um cidadão exemplar, como Aníbal Cavaco Silva, colabora com qualquer regime político, mesmo que o mesmo seja uma ditadura.

Um cidadão exemplar, como Aníbal Cavaco Silva, declara à PIDE, em 1967, estar "integrado no actual regime político".

Um cidadão exemplar, como Aníbal Cavaco Silva, não tem princípios nem espinha, apenas interesses pessoais.
Um cidadão exemplar, como Aníbal Cavaco Silva, não comete um lapso quando fala em dia da raça, apenas manifesta o seu inconsciente salazarista.




domingo, 28 de novembro de 2010

Por uma Europa dos cidadãos, não do capital!













Violência Doméstica, Tolerância Zero


Na semana em que se assinalou o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, o Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR divulgou os dados provisórios relativos ao ano de 2010.

Apesar dos avanços legislativos ocorridos nos últimos anos, os dados do relatório demonstram a manutenção de uma vergonhosa realidade que urge alterar:


O relatório conclui também que na maioria das situações já existiam antecedentes relativamente ao crime de violência doméstica e que, tal como nos anos anteriores, a maioria dos agressores mantinha ou havia mantido uma relação de intimidade com a vítima:


Para além da frieza dos números, é fundamental que questionemos o porquê da ineficácia das medidas de prevenção, sinalização e acompanhamento até agora implementadas.
A inversão desta realidade apenas será possível através de iniciativas legais e judiciais eficazes, garantindo a aplicação de medidas de coacção efectivas aos agressores, de modo a que exista uma real capacidade de protecção das vítimas de violência doméstica.
É também necessário que se continue a investir na (in)formação adequada das forças policiais e em campanhas nacionais que denunciem a violência doméstica como crime público, combatendo o silêncio cúmplice e conivente com que muitos ainda encaram esta questão.

Esta é também uma de luta de todos nós, homens e mulheres que se recusam a pactuar com a indeferença.

Porque há silêncios que matam, é nosso dever dizer: violência doméstica, tolerância zero!





sábado, 27 de novembro de 2010

Mais papistas do que o papa


Na semana em que o papa admitiu a utilização de preservativo em "certos casos", a Conferência Episcopal Espanhola apressou-se a reafirmar a habitual posição da ICAR, defendendo que a utilização do preservativo ocorre sempre "num contexto de imoralidade".

É mesmo caso para afirmar que, para os bispos espanhóis, todo o esperma continua a ser sagrado...

Lido por aí... # 5


Ao apresentar ao país este Orçamento, o primeiro-ministro garantiu que ele salvará o país. Que sacode a pressão internacional, que recupera a economia e que restabelece a confiança no momento da crise mais grave que vivemos nos últimos trinta anos.

A resposta do país foi vibrante.

Juntando todas as suas forças, solidariedades e dignidade, três milhões de portugueses e portuguesas uniram-se para fazerem ouvir a sua voz e votar este Orçamento. Obviamente, chumbaram-no.

Chumbaram-no porque o Governo, com o PSD como penhorista, apresentou um Orçamento para agravar e não, como era preciso, para vencer a crise.

Chumbaram-no porque a necessidade de consolidar as contas públicas não torna inevitável, antes condena a escolha da destruição dos serviços públicos.

Nesta 4ªfeira, ficou evidente que o Governo perdeu o país e que o país rejeita o governo e a sua aliança com a direita. A injustiça social e erro económico destas medidas de austeridade não foram só rejeitadas por quem se tem oposto nos últimos anos à destruição da economia, e esses são uma esquerda cada vez mais forte.

Esta semana, a rejeição do governo foi feita pela maioria dos trabalhadores assalariados que votaram PS nas últimas eleições.

Este governo ficou sozinho porque foi abandonado por quem não baixa os braços e não desiste do seu país.

A primeira das crises nacionais, que é a crise política, instalou-se num pântano em que PS e PSD juntaram as suas mais refinadas malfeitorias para justificarem sempre a pior solução. Não se tributam mais-valias porque o PSD não quer, diz o PS. Não se apresenta contas do BPN, diz o PSD, porque o PS não quer que se saiba das contas do banco do PSD gerido agora pelo PS. A orquestra do Titanic toca majestosamente enquanto o barco vai ao fundo.

Garantia o primeiro-ministro: agora é tempo de confiança.

E apresentou um orçamento que é uma assustadora manta de retalhos. Faltava passar da contabilidade pública para a nacional: total 831 milhões de euros, foi engano. Estava errada a verba atribuída à Mota-Engil e BES, total 587 milhões, foi engano. Estava um banco de terras, deixou de estar, foi engano. Estava a garantia de que os estagiários receberiam salário pelo seu trabalho, veio o PS dizer que foi engano. Está numa página a previsão de crescimento do PIB em 0,2% e noutra a previsão de queda do PIB em 0,7%: não podia ser mais claro, o engano é o Orçamento.

Por isso, ninguém no governo acredita que este orçamento seja cumprido. Hoje, encerrada a sua discussão, a única dúvida que resta é saber quantos dias o ministro das finanças ainda responderá por um orçamento que perpetua a crise económica e social do país. O ministro pediu hoje mais seis meses. Mas já se percebeu que todos os ministros estão colados ao telefone à espera da chamada de S.Bento que os dispense. Cada ministro sabe que não tem Orçamento, não tem política, não tem futuro. O último a sair apaga a luz, parece ser o estado de espírito no Governo por estes dias.

Aliás, como já estamos habituados nestes seis anos de governação, o primeiro-ministro nunca tem nada a ver com as más medidas que apresenta. O inferno são os outros. Foi a crise mundial, agora são os mercados, ou mesmo os até há pouco inquestionáveis Banco Central Europeu e a Sr.ª Merkel.

Mas o governo não tem uma palavra nem uma atitude para os causadores, que são ao mesmo tempo os beneficiários da crise. A PT antecipa o pagamento de dividendos para que os accionistas embolsem 260 milhões de impostos, e o ministro das finanças desmente o primeiro-ministro para que tudo fique na mesma. Ricardo Salgado embolsa 80 milhões em dividendos para não pagar impostos, Vasco de Mello 57 milhões, Américo Amorim 39 milhões, Soares dos Santos 64 milhões, a bolsa distribui 818 milhões em dividendos que ficam com a certeza de não pagar impostos, e o governo aplaude esta consolidação orçamental em que a especulação é premiada. O contribuinte sabe agora qual é a lei Sócrates: pagarás imposto para que o governo pague a quem especula contra a economia portuguesa.

Por isso, não surpreende que o Governo tenha mesmo desistido de defender as suas propostas. Limita-se a dizer que é inevitável uma recessão em nome da acalmia dos mercados. Garantia-nos o Governo que, sem Orçamento, o país entrava numa crise política que agitaria os mercados.

O que é que se viu, desde que Governo e PSD se juntaram, desjuntaram, e voltaram a juntar para acordarem que estão quase em desacordo sobre o Orçamento de Estado que ambos votaram? Os juros continuaram a subir. Subiram e subiram muito. A economia portuguesa continua a ser espoliada e os impostos sobem para pagar a especuladores.

Crise política é este Orçamento e a sua conivência com um PSD que, segundo as suas próprias palavras, quer destruir o Estado Social; o governo juntou-se-lhes então para tirar 1000 milhões de euros aos salários, 1000 milhões aos apoios sociais e 500 milhões à saúde. Destruir o Estado social é agora o lema do PS, e com que zelo o aplica.

Fazer um Orçamento para acalmar os mercados é, como estamos a ver, uma imensa falcatrua. Não só não tem nenhum efeito sobre os juros da divida, que continuam a subir todos os dias, como é uma decisão errática, sem rumo e que agrava as fraquezas da economia nacional.

Este Orçamento é por isso um convite ao FMI. Porque destrói a economia, como quer o FMI. Porque aumenta impostos, como quer o FMI. Porque cria desemprego, como quer o FMI. Porque a bancarrota é a solução FMI, e é a bancarrota que se está a ensair com este orçamento.

Não tinha que ser assim, não pode ser assim e não há-de ser assim. A economia portuguesa é atingida por uma onda especulativa porque temos uma economia fraca, que diverge há dez anos da média europeia e cria uma taxa de desemprego galopante, que limita a produção do país.

Era necessária uma política económica que respondesse às principais debilidades da economia portuguesa, a estagnação e o desemprego, sem atirar o país para mais um ano de recessão em 2011. Recordemos só alguns exemplos. Limitar em 25% os mais de 3800 milhões de Euros que vão todos os anos para benefícios fiscais às empresas, permitiria manter o valor dos salários.

Alterar corajosamente o regime fiscal, taxando as mais-valias urbanísticas que têm sido responsáveis por verdadeiros euromilhões com a corrupção de uma simples assinatura, garantia os recursos necessários para não aumentar o IVA e para defender os salários e as pensões mais baixas.

Promover o investimento público na ferrovia nacional e na reabilitação urbana. Impor uma auditoria às parcerias público-privado e renegociá-las em nome do interesse público.

Pôr cobro às despesas inúteis do Estado e modernizar a administração pública pouparia os milhões necessários para manter o abono às famílias carenciadas.

Não foi esse o caminho escolhido pelo bloco central do governo com o PSD, com a participação entusiasmada e sempre vigilante do presidente Cavaco Silva.

Este Orçamento não é para os desempregados, para os quais só promete mais desemprego.

Este Orçamento não é para os idosos com pensões baixíssimas e que vêm o seu valor congelado.

Este Orçamento não é para as famílias com filhos em idade escolar, que ficam sem o abono de família.

Este Orçamento não é para os trabalhadores, que estão a perder salário com os cortes e com os impostos.

É certo que foram aprovadas duas propostas importantes do Bloco de Esquerda. Assim, pela primeira vez, vamos saber o que era segredo, a lista dos donativos de Estado a todas as fundações privadas. E conseguimos reparar um consolador esquecimento do PS, que olvidara incluir autarcas no princípio de responsabilidade pelos seus actos. Duas importantíssimas propostas, que trazem responsabilidade e transparência.

Continuaremos este combate pela responsabilidade e transparência. Porque é ele que vai definir se há uma solução para o país.

Neste ano de 2011, vamos todos ser chamados a decidir. A democracia é fundamental como sempre, e agora é necessária como nunca. Só a democracia pode defender o país contra o FMI. Só a democracia pode defender a economia contra a bancarrota. Só a democracia pode dar lugar a um governo responsável, e essa é a luta da esquerda. O governo morreu com a aprovação deste orçamento e a sua aliança com a direita para criar desemprego e abrir a porta ao FMI. À esquerda compete lutar com todas as suas forças para salvar a economia, o trabalho e o respeito pelas pessoas. Esse é o compromisso do Bloco de Esquerda.

Intervenção de João Semedo, deputado do Bloco de Esquerda, no encerramento do debate do Orçamento de Estado


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