
Quando o país esperava que o Conselho de Estado o percebesse, este fechou os
olhos. Para quem se manifestou a 15 de Setembro e esteve nas vigílias de 21 de
Setembro, os problemas deste país não se resolvem pelo facto de o governo passar
a tirar-nos de outra maneira aquilo que nos roubava na TSU. Ao conquistarem as
ruas das suas cidades sob o lema “Que se lixe a troika! Queremos as nossas
vidas!”, centenas de milhares tomaram uma posição firme de denúncia de um
programa, o da troika, de um governo, o dos troikistas, e de um método
anti-democrático, o de sujeitar a população portuguesa a politicas que as
pessoas não discutiram nem votaram.
Os resultados comunicados ao país,
após mais de oito horas de reunião, apenas sugerem, sem concretizar, um possível
recuo na subida da TSU para os trabalhadores. Não nos congratulamos por isso:
consideramos grave a avaliação de que sem o protesto cívico não se teria
alterado sequer esta aberrante medida. Congratulamo-nos, antes, pelos milhares
de pessoas que fizeram exercício da sua participação política, muitas intervindo
pela primeira vez e muitas outras reiterando protestos desencadeados em diversos
sectores da sociedade, face aos sucessivos cortes nos rendimentos do trabalho e
nas reformas, na Saúde, na Educação, na Cultura, as privatizações das companhias
fornecedoras de gás e electricidade, os consequentes aumentos de preço e do IVA,
o agravamento de custos e as limitações às redes dos transportes públicos. Os
problemas do país não se resolvem com estas medidas de austeridade. A resolução
passa por dar voz ao povo, para que decida em conjunto como garantir um país
justo, defendendo os interesses de quem cá vive e trabalha e invertendo cruéis
assimetrias em prol de subservientes acordos assumidos com a troika.
O
Conselho de Estado – em que não se garante, de maneira alguma, uma verdadeira
representação do espectro político português – revelou os mesmos defeitos de
cegueira e surdez à voz do povo, característicos do governo, desrespeitando e
reinterpretando a seu gosto estes últimos e inequívocos protestos, num texto
paupérrimo e vazio, uma manobra de bluff político. Confirmámos assim que não é
apenas o governo quem vira as costas ao seu povo. O incansável protesto da
multidão demonstrou que, nitidamente, também o Presidente da República perdeu
por completo o respeito dos cidadãos e das cidadãs que vivem e trabalham neste
país.
É por isso necessário que continuemos a protestar. É cada vez mais
urgente traçar um novo rumo. Um rumo que tenha finalmente as pessoas como centro
das atenções, e não bancos e mercados ou interesses financeiros e especulativos.
Um rumo que reforce a participação democrática e cidadã e não nos limite a
vulgares espectadores de uma tragédia colectiva, ditada de gabinetes e de
bolsas. Um rumo que aponte para uma verdadeira solidariedade internacional, numa
mudança de regime que beneficie todos os povos, e que começa cada vez mais a ser
desenhado por plataformas e acções que apelam à convergência cívica em vários
países e designadamente à construção de uma nova Europa. Ao contrário do
primeiro-ministro Passos Coelho que considerou ser de menor importância uma
reunião de governos de Itália, Grécia, Espanha e Irlanda e Portugal para
discutir as politicas europeias, nós achamos fundamental que os povos da Europa
ajudem a traçar políticas para desenvolver a economia e o emprego em vez de
planos para garantir e multiplicar os lucros dos especuladores e agiotas que
jogam com as dívidas soberanas.
Consideramos ainda premente, para o
nosso país e para as nossas vidas, que as cidadãs e os cidadãos esqueçam
eventuais e pontuais divergências e se unam, se solidarizem e se juntem a outras
forças organizadas e aos movimentos que recusam este rumo, numa frente de
resistência comum. Apelamos por tudo isto à participação massiva no protesto
entretanto convocado pela CGTP-Intersindical para o próximo sábado, dia 29 de
Setembro. Juntos reclamaremos esse novo rumo, que inverta totalmente a sujeição
do governo aos joguetes políticos de entidades não sufragadas, que cinicamente
nos impõem “ajudas” com juros fatais e sacrifícios que jamais ousariam sequer
imaginar para si próprios. Um rumo onde não cabem a troika nem os troikistas.
Queremos as nossas vidas.
E por elas estamos dispostos a fazer, em
cada dia de luta, em cada novo protesto, algo de extraordinário.