Mostrar mensagens com a etiqueta Espanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Espanha. Mostrar todas as mensagens

domingo, 26 de agosto de 2012

"Un cañón en el culo", o texto de Juan José Millás que incendiou Espanha


 
"Un cañón en el culo", o texto do escritor Juan José Millás publicado no El País a 14 de Agosto, rapidamente circulou pelas redes sociais e incendiou a opinião pública espanhola.
Frontal e lúcida, como exigem os tempos que correm, a violenta crítica de Juan José Millás à barbárie capitalista que nos domina merece ser lida na íntegra:

O cano de uma pistola pelo cu

Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
 
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
 
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
 
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
 
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
 
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
 
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
 
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
 
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
 
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
 
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.



(tradução disponibilizada pelo Dinheiro Vivo)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Somos todos mineiros - concentração em apoio à luta dos mineiros espanhóis

.



Em continuidade com as semanas de lutas e greves que têm empreendido desde dia 22 de Junho, os trabalhadores, familiares e amigos dos mineiros de diferentes minas do país iniciaram uma marcha a pé até Madrid, denominada Marcha Negra.

No dia 11 de Julho os mineiros chegarão a Madrid, onde lhes esperam diversas manifestações de apoio. Concentrados em frente ao Consulado de Espanha, queremos expressar-lhes o nosso apoio também. Em solidariedade com estes trabalhadores, pegaremos nas nossas lanternas, nos nossos capacetes de obras e nos nossos coletes. Perante a crise, a União Europeia tem um plano muito concreto que é resgatar bancos, poupar os especuladores e despedir, despedir muito e destruir tudo o que produz riqueza.

O caso das jazidas de carvão em Espanha é flagrante: enquanto a U.E. acaba de aprovar um resgate directo aos bancos e, enquanto o Estado Espanhol injecta 23.500 milhões de euros no Bankia, retiram-se as ajudas à produção de carvão que equivalem a 0,8% do valor cedido a este banco, pondo sem fonte de rendimento cerca de 30.000 famílias.

É somar miséria à miséria.

A vitória dos mineiros será também internacional, será uma vitória de todos os trabalhadores, desempregados, reformados e jovens, e de todo o movimento de indignação que no último ano e meio veio do Norte de África, abrindo e mobilizando as mentes de milhões em toda a Europa.


Somos todos mineiros

.


sábado, 7 de julho de 2012

"Entre Línguas"








"Entre Línguas" é um documentário que mostra como ao longo da raia com Portugal existem cinco territórios que, por diversas circunstâncias históricas, decorrentes de feitos políticos, ficaram do lado espanhol da fronteira. Isto provocou que, nas províncias de Zamora, Salamanca, Cáceres e Badajoz, certas vilas, e até concelhos inteiros, conservassem uns dialetos que, apesar da falta de contato com o resto de falares galegoportugueses, conservem uma enorme semelhança com estes e em particular com o galego falado atualmente na Galiza.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quem são os violentos?

.
Um vídeo, divulgado hoje, revela a existência de polícias à paisana infiltrados entre os "indignados" de Barcelona.
A  táctica é antiga e  permanece eficaz: ateia-se a violência, provoca-se uma carga policial e está montada a estratégia necessária para descredibilizar um movimento de matriz pacífica (a comunicação social encarrega-se do resto).


De  Barcelona  ao Rossio, passando por Atenas, faz sentido questionar: quem são os violentos?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Barcelona, Atenas e Brecht


"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem."
Bertold Brecht
.
 


. . . 

domingo, 12 de junho de 2011

"No nos vamos, nos expandimos"


Sob o lema  "No nos vamos, nos expandimos", a acampada da Puerta del Sol chega hoje ao fim. Quase um mês após o seu início, o movimento 15-M propõe-se encetar uma nova fase de mobilizações e acções descentralizadas, das quais fazem parte o protesto internacional agendado para o dia 19 de Junho.

No dia em que se desmonta a acampada de Madrid, sugerimos a leitura deste dossier sobre o Movimento 15-M e recuperamos o sábio depoimento de Eduardo Galeano, recolhido em finais de Maio na acampada de Barcelona.
.

sábado, 21 de maio de 2011

The Revolution Will Not Be Televised



Perante a censura informativa que os canais televisivos portugueses têm aplicado aos protestos que estão a ocorrer em Espanha e em muitos outros locais do mundo, incluindo Portugal, não podíamos deixar de recuperar as palavras sábias de Gil Scott-Heron.

Quarenta anos depois, "The Revolution Will Not Be Televised" continua a fazer todo o sentido...
. . .

"Madrid será la tumba del neoliberalismo. ¡No pasarán!" *

. . . . .


* texto de uma das faixas colocadas pelos manifestantes na Puerta del Sol, em Madrid

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Manifiesto Plural"



Reproduzimos aqui, na íntegra e sem tradução, o Manifesto redigido na madrugada de 18 de Maio pelos manifestantes da Puerta del Sol, em Madrid:


Puntos de acuerdo del manifiesto plural redactado durante la madrugada del 18 de mayo en la Puerta del Sol

Los reunidos en la Puerta del Sol, conscientes de que esto es una acción en marcha y de resistencia, han acordado manifestar lo siguiente:

1. Después de muchos años de apatía, un grupo de ciudadanos de diferentes edades y extracciones sociales (estudiantes, profesores, bibliotecarios, parados, trabajadores...), CABREADOS con su falta de representación y las traiciones que se llevan a cabo en nombre de la democracia, se han reunido en la puerta del Sol en torno a la idea de Democracia Real.

2. La Democracia Real se opone al descrédito paulatino de las instituciones que dicen representar a los ciudadanos, convertidas en meros agentes de administración y gestión, al servicio de las fuerzas del poder financiero internacional.

3. La democracia que se promueve desde los corruptos aparatos burocráticos es simplemente un conjunto de prácticas electorales inocuas, donde los ciudadanos tienen una participación nula.

4. El descrédito de la política ha traído consigo un secuestro de las palabras por parte de quienes detentan el poder. Debemos recuperar las palabras, resignificarlas para que no se manipule con el lenguaje y se deje a la ciudadanía indefensa e incapaz de una acción cohesionada.

5. Los ejemplos de manipulación y secuestro del lenguaje son numerosos y constituyen una herramienta de control y desinformación.

6. Democracia Real significa poner nombres propios a la infamia que vivimos: Fondo Monetario Internacional, Banco Central Europeo, OTAN, Unión Europea, las agencias calificadoras de riesgo como Moody’s y Standard and Poor’s, Partido Popular, PSOE, pero hay muchos más y nuestra obligación es nombrarlos.

7. Es preciso construir un discurso político capaz de crear un nuevo tejido social, sistemáticamente vulnerado por años de mentiras y corrupción. Los ciudadanos hemos perdido el respeto a los partidos políticos mayoritarios, pero ello no equivale a perder nuestro sentido crítico. Antes bien, no tememos a la POLÍTICA. Tomar la palabra es POLÍTICA. Buscar alternativas de participación ciudadana es POLÍTICA.

8. Una de nuestras premisas principales es una Reforma de la Ley electoral que devuelva a la Democracia su verdadero sentido: un gobierno de los ciudadanos. Una democracia participativa. Y a su vez, exigimos un código deontológico para los políticos que asegure las buenas prácticas.

9. Hacemos hincapié en que los ciudadanos aquí reunidos conformamos un movimiento TRANSGENERACIONAL porque pertenecemos a diversas generaciones condenadas a una pérdida intolerable de participación en las decisiones políticas que conforman su vida diaria y su futuro.

10. No llamamos a la abstención, exigimos que nuestro voto tenga una influencia real en nuestra vida.

11. Hoy no estamos aquí para reclamar sencillamente el acceso a hipotecas o para protestar por las insuficiencias del mercado laboral. ESTO ES UN ACONTECIMIENTO. Y como tal, un suceso capaz de dotar de nuevos sentidos a nuestras acciones y discursos. Esto nace de la RABIA. Pero nuestra RABIA es imaginación, fuerza, poder ciudadano.

.
Related Posts with Thumbnails