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domingo, 4 de março de 2012

Entre nós e as palavras # 31

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Chamam destino ao rifão do acaso
e chamam à fraude boa fortuna.
Crêem no Batman e na Virgem Maria.
Duvidam do frio, não da polícia
e nunca dão crédito àquilo que vêem.


Reservam a tempo um lugar na geral,
põem o pé entre duas ciladas
e ficam a rir-se nas fotografias.
Sujam a roupa tal como nós, mas
mandam-na sempre a lavandarias
que sabem tratar dos casos difíceis.


Nunca dão ponto sem antes o nó,
mas fazem um laço por cima do nó.
Compram revistas de aval científico
em cujos artigos se prova o seguinte:
é quase impossível determinar
se é falsa uma lágrima ou se é verdadeira.


Depois, jantam em grupo, falam dinheiro,
guiam a vida por grandes veredas e ouvem
sininhos, muitos sininhos de música sacra.


José Miguel Silva - "Contra os optimistas"


(Imagem: Banksy)


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Entre nós e as palavras # 8



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen - "Porque"


(imagem de Banksy)





domingo, 18 de julho de 2010

Discutir alternativas



O debate do estado da Nação, na passada quinta-feira, constituiu mais uma oportunidade perdida para efectuar o diagnóstico da situação do país.

Entre o país fantasista que Sócrates construiu para si próprio, as tentativas infrutíferas do PS e do PSD de se distinguirem entre si ou o sound bite populista de Paulo Portas, pouco se discutiu efectivamente sobre as políticas governamentais que nos conduziram à situação actual.

O que importaria discutir seria a insistência desta coligação virtual, formada pelo PS e pelo PSD, numa via de sentido único, que sistematicamente ignora e rejeita todas as propostas alternativas que emergem da esquerda parlamentar.

Apesar dos esforços do BE e do PCP para que exista uma discussão séria sobre a construção de políticas alternativas ao actual modelo neoliberal, o que temos assistido é a uma crescente homogeneização do discurso político do PS, em conluio com as ideias defendidas pela direita e pela extrema-direita parlamentares.

Impulsionado pelas directrizes emanadas pela UE e pelos mercados (essas entidades abstractas, sem nome nem rosto), o governo de Sócrates insiste na adopção de medidas recessivas que, a curto prazo, tornarão ainda mais insustentável a situação económico-social do país.

É neste contexto de afunilamento ideológico que se torna fundamental dar visibilidade a opiniões que apontem alternativas e estimulem a discussão em torno de medidas divergentes às do modelo seguido pelo governo português e pelos seus congéneres europeus.

Vem isto a propósito do texto de Domingos Ferreira (professor e investigador da Texas University /Universidade Nova de Lisboa), intitulado “Ortodoxia e desemprego”, publicado no jornal Público, na passada sexta-feira.
Entre diversas críticas às medidas adoptadas pelos governos europeus, o autor avança com algumas ideias/propostas que contrariam as opções do que define como a ortodoxia económica dominante:

“[…] aquilo que alguns políticos têm alguma dificuldade em perceber, é que embora as medidas de controlo fiscal de longo prazo sejam determinantes, cortar na despesa pública durante uma economia em depressão e deflacionária pode ser fatal. Neste sentido, seria lastimável reduzir ou acabar com investimento público eficiente que proporcione encomendas às empresas, pois teriam um efeito multiplicador em toda a economia: proporcionando procura, emprego e riqueza fiscal. Seria obsceno reduzir, acabar ou não renovar os subsídios de desemprego ou de saúde, de integração social ou de subsistência, lançando milhões de famílias, por esta via, na indigência e resultando em menos procura, agravando mais a situação das pequenas e médias empresas, provocando mais desemprego.”
[…]
“O mainstream argumenta que o excessivo endividamento dos Estados não permite qualquer amplitude no endividamento. Porém, existem outras fontes de recursos significativos que os Estados poderão utilizar. De acordo com um estudo desenvolvido pela JP Morgan Research, na última década e meia as grandes companhias europeias (e americanas) retiveram lucros superiores a 1,7 por cento do Produto Interno Bruto. A razão para estes excessos de liquidez prende-se com o facto de os gestores estarem fundamentalmente obcecados com apresentação de lucros trimestrais, os quais se traduzem em bónus exorbitantes aos seus executivos, maiores dividendos aos seus accionistas ou simplesmente investimento na especulação financeira.
Por conseguinte, os dirigentes políticos deverão criar e reforçar os incentivos ao reinvestimento desses lucros nas respectivas organizações. Criando uma taxa agressiva sobre lucros não reinvestidos nos dois anos subsequentes, bem como nos lucros provenientes da especulação financeira resultantes dos investimentos financeiros das empresas. Por outro lado, a UE deverá promover uma feroz perseguição judicial à fuga de capitais, os quais, estima-se, em cerca de 3 por cento do PIB, para os offshores, pressionando as respectivas instituições financeiras a revelarem os detentores das contas (os EUA têm-no feito com sucesso). Deste modo, seriam encontrados os recursos financeiros necessários para a implementação de um verdadeiro estímulo à economia sem agravamento do défice, levando ao mercado de trabalho milhões de pessoas que, de outro modo, não obterão emprego por muitos anos e muitas das quais nunca mais entrarão no mercado de trabalho."

A transcrição de excertos do texto de Domingos Ferreira pretende apenas demonstrar que não existe um modelo de pensamento único, submetido à ditadura do défice e alheio aos interesses dos povos. As opiniões e as alternativas existem, apesar do exíguo espaço que a comunicação social lhes concede. Trazer estas alternativas para o debate político é o contributo de todos aqueles que, como nós, não se revêem neste modelo neoliberal que nos têm vindo a impor.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Artistas Unidos



Depois de acusar o Bloco de Esquerda de liderar o protesto dos agentes culturais, a ministra da cultura definiu, hoje, esse mesmo protesto como um "movimento cívico forte".

Colocando de parte a tralha retórica-política de Gabriela Canavilhas, o recuo do governo nos cortes anunciados para o sector da cultura são uma vitória da Plataforma das Artes, demonstrando que é possível combater e vencer esta ditadura do défice que nos tem governado.

sábado, 10 de julho de 2010

Estamos fartos!



Estamos fartos!

Estamos fartos do discurso falacioso de que os sacrifícios são equitativamente distribuídos por todos.
Estamos fartos deste pacto político-comunicacional que nos enfia PECs sucessivos pela goela abaixo, como se este fosse o único caminho existente.
Estamos fartos das missas dominicais de Marcelo, das agendas pessoais de Crespo e de todos os comentadores do regime (quantos deles com anteriores responsabilidades governativas).

Estamos fartos do desemprego, da precariedade laboral, da desregulação dos horários de trabalho, da diminuição salarial, do agravamento fiscal dos bens de primeira necessidade e dos cortes nas prestações sociais.
Estamos fartos que este Bloco Central, que ninguém elegeu, nos diga que vivemos acima das nossas posses e que o Estado-Providência é um luxo anacrónico.
Estamos fartos dos ataques da extrema-direita parlamentar ao excesso de generosidade das prestações sociais, como se não existissem 2 milhões de pobres neste país.

Estamos fartos de apoios ao sector financeiro, de fraudes bancárias e de uma política fiscal em que a tributação da Banca é inferior à de uma PME.
Estamos fartos desta política económica que encara a existência de offshores como uma inevitabilidade, insistindo em ignorar os milhões de euros que desta forma não pagam impostos.
Estamos fartos de confederações patronais, de gestores milionários, de especulação bolsista e da completa subjugação dos governos às leis do mercado.

Estamos fartos dos planos de privatizações já anunciados (CTT, REN, ANA, um bocadinho da CGD e ainda outro da CP) e do abandono dos sectores estratégicos aos interesses puramente mercantis dos privados.
Estamos fartos de uma Europa neoliberal que assiste e promove a destruição sistemática do “modelo social europeu”, como se este não fosse um dos seus maiores patrimónios civilizacionais.
Estamos fartos do Durão Barroso (porreiro pá, só se for para ti) e de uma Comissão Europeia que rasteja perante os mercados e dança ao ritmo de Merkel.

Estamos fartos dos ataques sistemáticos à Segurança Social, ao Sistema Nacional de Saúde, à Escola Pública e à Cultura.
Estamos fartos de um presidente da república que desbaratou fundos estruturais em alcatrão e betão, comportando-se agora como se ele próprio não fizesse parte do problema.
Estamos fartos de pagar uma crise para a qual não contribuímos, pois nunca acreditámos na máxima da auto-regulação dos mercados nem no conceito liberal de “estado mínimo”.

Estamos fartos que hipotequem as nossas vidas e que nos tentem demonstrar que o futuro é já ali, algures no século XXI mas com direitos iguais aos do século XIX.

Estamos fartos, mas vamos continuar a dar-lhes luta!

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