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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Entre nós e as palavras # 32 (no dia em que passam 15 anos sobre a morte de Al Berto)




deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário — o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida — e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al Berto - "notas para o diário"


 
 

domingo, 4 de março de 2012

Entre nós e as palavras # 31

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Chamam destino ao rifão do acaso
e chamam à fraude boa fortuna.
Crêem no Batman e na Virgem Maria.
Duvidam do frio, não da polícia
e nunca dão crédito àquilo que vêem.


Reservam a tempo um lugar na geral,
põem o pé entre duas ciladas
e ficam a rir-se nas fotografias.
Sujam a roupa tal como nós, mas
mandam-na sempre a lavandarias
que sabem tratar dos casos difíceis.


Nunca dão ponto sem antes o nó,
mas fazem um laço por cima do nó.
Compram revistas de aval científico
em cujos artigos se prova o seguinte:
é quase impossível determinar
se é falsa uma lágrima ou se é verdadeira.


Depois, jantam em grupo, falam dinheiro,
guiam a vida por grandes veredas e ouvem
sininhos, muitos sininhos de música sacra.


José Miguel Silva - "Contra os optimistas"


(Imagem: Banksy)


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Recordar para nunca esquecer # 2 (Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto)

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Se tivesse comido logo que chegou do campo, o estômago ter-se-ia rasgado por causa do peso dos alimentos, ou então esse peso encostar-se-ia ao coração que, pelo contrário, na caverna da magreza, se tinha tornado enorme: batia tão depressa que não era possível contar as pulsações, não era possível dizer que batia, propriamente, mas tremia, como se estivesse sob o efeito do terror. Não, não podia comer sem morrer. Mas não podia ficar mais tempo sem comer sem que morresse. A dificuldade era essa.
[...]
Papas, disse o médico, à colher de café. Dávamos-lhe papas seis ou sete vezes por dia. Uma colher de café de papa sufocava-o, agarrava-se às nossas mãos, procurava o ar e voltava a cair na cama. Mas engolia. E assim, seis ou sete dias pedia para fazer. Levantávamo-lo pegando-lhe por baixo dos joelhos e dos braços. Devia pesar entre trinta e sete e trinta e oito quilos: o osso, a pele, o fígado, os intestinos, o cérebro, o pulmão, tudo incluído: trinta e oito quilos repartidos por um corpo de um metro e setenta e oito. Pousávamo-lo no bacio, púnhamos uma pequena almofada no rebordo: no sítio onde as articulações se moviam mesmo por baixo da pele, a pele estava em carne viva. [...] Quando se sentava no bacio fazia tudo de uma só vez, num glu-glu enorme, inesperado, desmesurado. Aquilo que o coração retinha, o ânus não podia reter, largava o conteúdo. Tudo, ou quase, largava o conteúdo, até os dedos que já não retinham as unhas, também as largavam. [...]
Durante dezassete dias, o aspecto daquela merda foi sempre o mesmo. Era desumana. Separava-o de nós mais do que a febre, do que a magreza, do que os dedos sem unhas, do que as marcas da pancada dos S.S. Dávamos-lhe papa amarela, dourada, papa para bebé e depois saía dele verde escuro como se fosse lodo de um pântano. Depois de taparmos o bacio ouvíamos as bolhas quando rebentavam à superfície. Podia fazer lembrar - viscosa e peganhenta - um escarro grande. Logo que saía, o quarto enchia-se de um cheiro que não era o da putrefacção, o do cadáver - se é que ainda havia no corpo dele matéria para cadáver -, era mais o de um húmus vegetal, o cheiro das folhas mortas, o da vegetação rasteira e espessa, nos bosques. Era de facto um cheiro sombrio, espesso como o reflexo dessa noite espessa da qual ele emergia e que nós não conheceríamos nunca. (Eu encostava-me às persianas, a rua debaixo dos meus olhos passava, e como eles não sabiam o que acontecia no quarto, apetecia-me dizer-lhes que naquele quarto por cima deles, um homem tinha voltado dos campos alemães, vivo.)

Marguerite Duras - "A Dor" (excerto)

(Tradução: Tereza Coelho)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Entre nós e as palavras # 30

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Viva no instantâneo lábio do punhal
na hora diariamente imóvel

As dívidas crescem já são ásperas
magoam a pele já são pus

O dia começa pela sombra
como um povo começa pelo pó
Luz e morte coincidem hora a hora

A dívida alastra   abre as asas
leva-me sonhos débeis tudo a tenta

Atrás do meu gesto
a mão sozinha os dedos conspirando
assimétricos
salientes do corpo até à morte

Já hoje os doava se pudesse
Com que arma porém os separar de mim?

A dívida mais cresce
enquanto eu penso
    

Luiza Neto Jorge - "A Dívida"


(Fotografia: Robert and Shana ParkeHarrison - "Gray Dawn")


domingo, 13 de novembro de 2011

Entre nós e as palavras # 29

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O outono come da minha mão a sua folha: somos amigos.
Tiramos às nozes a casca do tempo e ensinamo-lo a andar:
o tempo regressa de novo à casca.

No espelho é domingo,
no sonho dorme-se,
a boca fala verdade.

O meu olhar desce até ao sexo dos amantes:
olhamo-nos,
dizemos algo de escuro,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
ou o mar no brilho-sangue da lua.

Ficamos abraçados à janela, olham para nós da rua:
é tempo que se saiba!
É tempo que a pedra se decida a florir,
que ao desassossego palpite um coração.
É tempo que seja tempo.

É tempo.


Paul Celan - "Corona"

(Tradução: Y. K. Centeno)
 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Entre nós e as palavras # 28

-


Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer    

Ruy Belo - "E tudo era possível"




segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Entre nós e as palavras # 27




Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena - "Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya" 


Vídeo: Mário Viegas (voz), Luís Cília (música)


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Entre nós e as palavras # 26


Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
- ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
- como eu - insónia, pesadelo, golpe baixo).

Existem, claro, raparigas louras um tanto
heteredoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita - o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.

Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
- ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.

O resto, a vida, fica para outra vez.

Manuel de Freitas - "Ode à noite (inteira)"
 
 
(Fotografia: Jan Saudek - "Untitled (transparent man at night)"
 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Entre nós e as palavras # 25


há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto - "Salsugem / 9"
 
 
(Fotografia: Paulo Nozolino - pormenor da imagem de capa do livro "Horto de Incêndio")
 

domingo, 5 de junho de 2011

Entre nós e as palavras # 24


compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
não compra não come não caga morre

Alberto Pimenta


(imagem: ±MaisMenos±)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Entre nós e as palavras # 23



Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.
Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente.
Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro.
No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.
Olhou em volta, viu o se povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:
- Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.
Alguns foram.
Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.
Depois disso, é o que se vê.

Mário-Henrique Leiria – “Torah”

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Entre nós e as palavras # 22


Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz a verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre
-Sob o ausente olhar silente da atenção –

Para construir a festa do terrestre
Na nudez da alegria que nos veste

Sophia de Mello Breyner Andresen - "Nesta Hora"
 
 

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Entre nós e as palavras # 21


Roubam-me Deus,
outros o diabo
- quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
- quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui del-rei!
Jorge de Sena - “Epígrafe para a Arte de Furtar”


(Fotografia:  Rui Pires - "Momentos Rurais")  

terça-feira, 19 de abril de 2011

Entre nós e as palavras # 20


O dia abre as pálpebras lentamente
arroxeando as colinas e a água
quieta da ribeira
É fim de Abril e a memória
traz-me ou inventa paisagens de saudade
embora eu me limite a descerrar
a janela e espreitar os prédios fronteiros
sempre iguais enquanto à porta do supermercado
cresce desordenadamente
a fila dos mais apressados
Os meus campos agora são de cinza
e neles corre apenas o rio da tristeza
Ontem trouxeram-me cravos de Abril
e canções que eu tinha quase esquecido
“O trabalho contra o capital”…
Rimos cantámos e custou-me muito
depois vê-los partir
O universo está à beira da loucura
globalizado na riqueza de poucos
e egoístas e há tufões incêndios e maremotos
e desumanas guerras torturas e massacres
A língua venenosa da serpente os touros
de fogo os céus que estremecem e ameaçam
esmagar de todos os mais indefesos
A máscara destes horrores é a falsa
democracia que já foi árvore de sol
e agora por vezes é lama em que
se tropeça e quase se perde a esperança
Fico-me com a minha angústia
e este tão breve aroma de Abril
intervalo de luz que me trouxeram

Urbano Tavares Rodrigues – “Angústia”


(Fotografia: Pessoa N Beat - "Uma tristeza profunda") 

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terça-feira, 29 de março de 2011

Entre nós e as palavras # 19


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

não posso adiar o coração

António Ramos Rosa - "Não posso adiar o amor para outro século"


(Fotografia: Paulete Matos)
 

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez com sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral de posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

Herberto Helder - "O Poema / I"


(Fotografia: Robert Mapplethorpe - "Thomas", 1987)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Entre nós e as palavras # 18


Selvagens, como cães famintos
trincharemos o velho mundo.
Selvagens, trincharemos o velho mundo
até o sangue,
até o sangue, até o osso.
Faremos um belo enterro.
Como formigas seguiremos o ataúde
(haverá muito trabalho então)
e com terra
com terra
taparemos
este nosso bom
e velho mundo.

Karel Destovnik Kajuh - "Selvagens, Como Cães Famintos"

(Tradução: Aleksandar Jovanovic)

(Fotografia: Paulo Nozolino)

domingo, 6 de março de 2011

Entre nós e as palavras # 17


Vocês são a fovor ou contra?
Respondam sim ou não.
Decerto já pensaram no problema
Creio sinceramente que ele os tem preocupado.
Tudo na vida traz preocupações
Crianças mulheres insectos
Plantas nocivas, horas sem proveito
Paixões difíceis, dentes cariados
Filmes medíocres. E isto decerto os preocupa.
Sejam responsáveis e digam: Sim ou não.
A vocês é que cabe decidir.
Não lhes pedimos evidentemente que abandonem
Suas ocupações, que interrompam sua vida
O jornal preferido o bate-papo
No barbeiro os domingos ao ar livre.
Uma palavra só. Vamos, então:
Vocês são contra ou a favor?
Pensem bem: Eu fico à espera.

Manólis Anagnostákis - "A Decisão"

(tradução: José Paulo Paes)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Entre nós e as palavras # 16


Paisagem destruída, com
latas de conserva, as entradas das casas
vazias, o que há lá dentro? Aqui cheguei

à tarde, de comboio,
duas panelas atadas
ao saco de viagem. Agora deixei

para trás os sonhos que sopram
numa encruzilhada. E pó,
pavana fragmentada, néon

morto, jornais e carris,
este dia, que me resta agora,
um dia mais velho, mais afundado e morto?

Quem é que disse que a isto
se chama vida? Eu retiro-me
para outros tons de azul.

Rolf Dieter Brinkman - "Poema"
 
(Tradução: João Barrento)
 
 
 

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