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sábado, 28 de abril de 2012

Donos de Portugal (versão integral)


Depois da estreia televisiva na RTP 2, relegada para a madrugada de 25 de Abril, o documentário Donos de Portugal já atingiu mais de 40 mil visualizações na internet.

Para além de deixarmos aqui a versão integral do documentário de Jorge Costa, sugerimos também a assinatura desta petição, que tem como objectivo exigir uma nova transmissão televisiva de Donos de Portugal, desta vez em horário nobre.





sexta-feira, 13 de abril de 2012

Donos de Portugal, um documentário de Jorge Costa





Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a protecção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza. 

Mello, Champalimaud, Espírito Santo  - as grandes famílias cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos  - Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.


No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui.

Baseado no livro homónimo de que Jorge Costa é co-autor, Donos de Portugal foi produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea.

Estreia na RTP 2, na noite de 24 para 25 de Abril, à 1h30.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"No pas­sado, a caça, o ténis e o golfe eram os pas­satem­pos dos ricos. Actual­mente, o desporto dos poderosos é a fuga aos impostos."

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"Transparência Fiscal", assinado por João Pedro Martins (economista e autor do livro "Suite 605 - A história secreta de centenas de empresas que cabem numa sala de 100 m2"), é um texto fundamental para perceber as consequências económicas das "burlas legais" que impunemente se praticam no offshore da Madeira:

Em Por­tu­gal, existe uma elite cor­rupta que cap­turou a econo­mia e o poder político. Esta elite tam­bém se recusa a pagar impos­tos. A grande cor­rupção ocorre ao nível empre­sar­ial e político quando um grupo restrito de pes­soas usa a mag­i­s­tratura de influên­cia para aprovar leis labirín­ti­cas que lhes con­ce­dem bene­fí­cios veda­dos aos restantes concidadãos.

No pas­sado, a caça, o ténis e o golfe eram os pas­satem­pos dos ricos. Actual­mente, o desporto dos poderosos é a fuga aos impostos.

As prin­ci­pais multi­na­cionais e con­heci­dos empresários por­tugue­ses têm usado o Cen­tro inter­na­cional de Negó­cios da Madeira (um eufemismo para suavizar a carga neg­a­tiva do off­shore exis­tente na Zona Franca da Madeira) para praticar uma ver­dadeira “burla legal”, que tem esvazi­ado os cofres públi­cos e trans­ferido a carga trib­utária das grandes empre­sas para os pequenos con­tribuintes, que sem­pre pagaram impostos.

Esta batota fis­cal estran­gu­lou o desen­volvi­mento regional e viu nascer uma rede de piratas e ter­ror­is­tas fis­cais que têm saque­ado o país impune­mente. A maio­ria das empre­sas sedi­adas na Zona Franca da Madeira faz parte de uma espé­cie de sociedade sec­reta, um mon­stro que se ali­menta de trib­u­tos não pagos e que todos vêem mas ninguém conhece.

Segundo dados pub­li­ca­dos no Por­tal das Finanças, cada uma destas enti­dades custa ao Estado por­tuguês mais de 1100 mil­hões de euros em bene­fí­cios fis­cais. Cada tra­bal­hador destas empresas-fantasma implica uma despesa fis­cal de 650 mil euros por ano. Em 2009, a média de IRC pago não ultra­pas­sou 0,16 por cento, enquanto a taxa de impos­tos para as empre­sas no resto do ter­ritório nacional é de 25 por cento.

Ficou por pub­licar a lista das enti­dades que em 2010 foram con­tem­pladas com bene­fí­cios fis­cais. A transparên­cia fis­cal é um instru­mento fun­da­men­tal na Democ­ra­cia. É um dire­ito dos con­tribuintes, dos eleitores e de todos os cidadãos. A transparên­cia fis­cal é um dever legal do Estado e a sua divul­gação é uma exigên­cia da Lei do Orça­mento do Estado para 2011, que foi sufra­gada pelos dep­uta­dos da Assem­bleia da República: “A DGCI deve, até ao fim do mês de Setem­bro de cada ano, divul­gar os sujeitos pas­sivos de IRC que uti­lizaram bene­fí­cios fis­cais, indi­vid­u­al­izando o tipo e o mon­tante do bene­fí­cio uti­lizado” (Lei n.º 55-A/2010, de 31 de Dezem­bro, alter­ada pela Lei n.º 48/2011, de 26 de Agosto).

Nas últi­mas três décadas, esta juris­dição espe­cial tornou-se num ninho de cor­rupção que bran­queia crimes de evasão fis­cal noutros países, mas que na Zona Franca da Madeira cabem na actual moldura legal. É no silên­cio da lei que as máfias rus­sas e ital­ianas desem­bar­cam na Madeira para lavar din­heiro sob a capa de impor­tações e expor­tações de mer­cado­rias e matérias-primas que nunca pas­saram pelo porto do Fun­chal, mas cujas fac­turas con­tribuem para o aumento do Pro­duto da região e fazem com que o PIB per capita da Madeira seja o segundo maior do país.

Esta men­tira que está nas con­tas públi­cas de Por­tu­gal retirou à Madeira o estatuto de Objec­tivo 1 das regiões ultra­per­iféri­cas da União Europeia bar­rando a pos­si­bil­i­dade do acesso a 500 mil­hões de euros em fun­dos comu­nitários e a 400 mil­hões para com­bater a insu­lar­i­dade, prove­nientes do Orça­mento do Estado e pre­vis­tos na Lei de Finanças das Regiões Autóno­mas. A Madeira apre­senta con­tas de rico, enquanto trinta por cento da sua pop­u­lação vive abaixo do lim­iar da pobreza.

Em bene­fí­cios fis­cais con­ce­di­dos às empre­sas insta­l­adas no off­shore e em fun­dos per­di­dos por ter um PIB arti­fi­cial­mente infla­cionado, o país perde o equiv­a­lente ao que deixa de pagar aos fun­cionários públi­cos com os cortes nos sub­sí­dios de férias e de Natal em 2012.

Sem transparên­cia, é impos­sível exi­s­tir justiça fis­cal. Os impos­tos con­stituem uma fer­ra­menta deter­mi­nante para o desen­volvi­mento e o com­bate à pobreza, mas os sac­ri­fí­cios não podem ser exigi­dos a quem está nos últi­mos degraus da escada social.

É per­feita­mente irreal que, durante uma década, numa sala de 100 met­ros quadra­dos se empil­has­sem mil empre­sas que ocu­param o espaço equiv­a­lente a um disco de vinil ou a um mosaico cerâmico de coz­inha. No mesmo escritório, a maior pro­du­tora mundial de alumínio coabitou com a maior pro­du­tora mundial de aço. Em 2009, ambas as empre­sas apre­sen­taram um vol­ume de negó­cios agre­gado na Madeira próx­imo dos 4000 mil­hões de euros, sem que uma grama de aço ou de alumínio tenha sido fun­dida no Fun­chal. A Pep­siCo e a British Amer­i­can Tobacco pas­saram pelo mesmo local onde estão sedi­adas as sub­sidiárias por­tugue­sas da gigante UC Rusal e da Arcelor­Mit­tal. Estas multi­na­cionais não pagaram impos­tos em Por­tu­gal porque, legal­mente, ben­e­fi­cia­ram de um regime de isenção fis­cal. Usaram o off­shore da Madeira ape­nas como um bor­del trib­utário para migrar lucros e fugir aos impos­tos, uti­lizando uma téc­nica con­tabilís­tica con­hecida por “manip­u­lação dos preços de transferência”.

Para garan­tir a justiça fis­cal, os impos­tos devem ser pagos no local onde os lucros são obti­dos. Só assim é pos­sível com­pen­sar as comu­nidades locais pelo uso com­er­cial do seu território.

Na Madeira nada disto acontece.



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sábado, 6 de agosto de 2011

"Revolução e mulheres", de Maria Velho da Costa


Graças ao Miguel Cardoso, do sempre recomendável Unipoppers, revisitámos recentemente o texto "Revolução e mulheres", da autoria de Maria Velho da Costa e incluído no livro "Cravo" (Lisboa: Moraes, 1976; 2ª ed. D. Quixote, 1994).

Em jeito de agradecimento público a Maria Velho da Costa e ao Miguel Cardoso, à primeira pela autoria desta magnífica obra e ao segundo pela sua preciosa divulgação, reproduzimos aqui,  na sua versão integral, as 7 partes que constituem "Revolução e mulheres".

REVOLUÇÃO E MULHERES

1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.


2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná -lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer uin borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.


3. PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.


4. SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.


5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:

— Se mexes aí, corto-ta.

— Isso não são coisas de menina.

— O meu homem não quer.

— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.

— A mulher quer-se é em casa.

— Isto já vai do destino de cada um.

— Deus não quiz.

— Mas o senhor padre disse-me que assim não.

— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.

— Você sabe que eu não sou dessas.

— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.

— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.

— Comprei uns jeans bestiais, pá.

— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.

— Cada um no seu lugar.

— Julgas que ele depois casa contigo?

— Sempre há-de haver pobres e ricos.

— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso. — Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.

— Sempre é homem.


6. PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.


7. REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro 1975

Maria Velho da Costa, Cravo, Lisboa, Moraes Editores, 1976.

sábado, 23 de abril de 2011

Dia Mundial do Livro

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"Livros" - Caetano Veloso

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

domingo, 27 de março de 2011

Cinematógrafo do Reviralhos # 8

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The Shock Doctrine -
A Doutrina do Choque (2009)

 



Título: The Shock Doctrine - A Doutrina do Choque (2009)

Realização: Mat Whitecross e Michael Winterbottom

Argumento: baseado no livro de Naomi Klein, "The Shock Doctrine: The Rise Of Disaster Capitalism" - "A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo de Desastre" 

Duração: 79 minutos

sábado, 5 de março de 2011

"Manifesto dos Economistas Aterrados", agora em livro



Já aqui havíamos falado sobre o Manifesto lançado pela Associação Francesa de Economia Política.

A tradução portuguesa do documento será agora editada em livro (com prefácio de João Rodrigues e Nuno Serra - dois dos autores do indispensável Ladrões de Bicicletas), tendo lançamento previsto para o final deste mês.


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

"Feminismos - Percursos e Desafios (1947-2007)", de Manuela Tavares


O livro de Manuela Tavares, "Feminismos - Percursos e Desafios (1947-2007)",  será apresentado no dia 15 de Março, pelas 18h30, na Livraria Ler Devagar, em Lisboa.

O Público publicou hoje uma entrevista com a autora, cuja leitura também aconselhamos.


domingo, 19 de dezembro de 2010

No centenário do nascimento de Jean Genet


Jean Genet foi poeta, prosador, dramaturgo, autor de uma única obra cinematográfica. Filho de pai incógnito, abandonado pela mãe, escarrou nas instituições, no poder, na ordem, na moral, na autoridade, na religião. Fez a elegia dos excluídos e elevou a heróis os protagonistas da sarjeta social. Glorificou criminosos, ladrões, putas, chulos, as margens da sociedade. Conheceu os cárceres, os corpos dos homens, o sexo visceral. Foi amado por uns (Sartre, Beauvoir, Cocteau, Giacometti…) e odiado por quase todos os outros. Foi anti-colonialista, apoiante dos palestinianos, dos Black Panthers, dos Baader-Meinhof. Inspirou encenadores (as suas peças continuam a ser regularmente encenadas, incluindo em Portugal), músicos (Pop Dell’Arte, David Bowie, CocoRosie…), realizadores (Fassbinder, Todd Haynes…), escritores (Al Berto, Edmund White…). Subverteu, subverteu sempre.

José Manuel dos Santos publicou ontem uma admirável crónica sobre Genet (revista Atual, jornal Expresso, edição de 18 de Dezembro), que sintetiza de forma perfeita a importância literária da sua obra:
Na sua escrita (“Escrever é levantar todas as censuras”), o mais lírico e refinado francês vive com o mais duro e vulgar calão. Na sua teologia, as virtudes são o roubo, a traição e a homossexualidade (“Um macho que beija outro macho é um macho a dobrar”), vivida como transgressão e castigo. Excluído pelo nascimento, fez da exclusão o seu contra-ataque: o excluído exclui. Traído, trai. Tudo se inverte na sua contramoral: o pecado é a virtude e o profano é o sagrado. Genet é o santo do mal (“A santidade é forçar o Diabo a ser Deus”).
“Roubo” em francês diz-se vol e é também “voo”. Neste homem sem céu nem terra, mas com muitos corpos e muitas almas, o baixo e o alto juntam-se. As palavras roubam-se e acendem-se para queimar. Os corpos voam na fuga e no amor. Aquele para quem a poesia e o crime são irmãos, disse: “A minha vitória é verbal e devo-a à sumptuosidade das palavras.” Sem Genet, a literatura saberia menos dos homens – e de si.

No dia em que se celebra o centésimo aniversário do nascimento de Jean Genet (19 de Dezembro de 1910 – 15 de Abril de 1986), recordamos a sua obra eventualmente menos conhecida, a curta metragem “Un Chant d’Amour” (1950).
Única aventura cinematográfica de Genet, responsável pelo argumento, montagem e realização, apenas conheceu a sua estreia em 1975 e continua, até hoje, relegada a um relativo desconhecimento público. Descubram-na, revejam-na e façam o mesmo em relação à obra literária de Jean Genet.







domingo, 31 de outubro de 2010

Os Donos de Portugal - Cem Anos de Poder Económico (1910-2010)


Numa altura em que é crescente a promiscuidade entre o poder económico e o poder político, não podíamos deixar de destacar a edição do livro "Os Donos de Portugal - Cem Anos de Poder Económico (1910-2010)", uma co-autoria de Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas.

Da árvore genealógica das famílias que constituem a oligarquia financeira e económica portuguesa, passando pela análise das suas relações privilegiadas com o Estado (um em cada cinco dos ministros e dos secretários de Estado que tomaram todas as decisões sobre economia em 30 anos passou pelo BCP e um em cada dez pelo BES), a obra efectua uma análise exaustiva sobre quem são e como se perpetuam os verdadeiros donos de Portugal.

Certamente que voltaremos a este livro, abordando de forma aprofundada o seu conteúdo e dando-lhe o merecido destaque.
Até lá, não resistimos a transcrever a pertinente crónica, "Os donos do silêncio", que Oscar Mascarenhas publicou no Jornal de Notícias:

Cinco dos mais proeminentes líderes de um partido com representação na Assembleia da República lançaram na semana que passou um livro feito em conjunto. Este simples facto seria notícia de tomo e com seguimentos em qualquer país de imprensa livre. Fosse qual fosse o livro - mesmo de anedotas.

Pois. Mas os cinco autores chamam-se Francisco Louçã, Luís Fazenda, Fernando Rosas, Cecília Honório e Jorge Costa. O título? 'Os Donos de Portugal - Cem Anos de Poder Económico (1910-2010)'. Resultado: silêncio absoluto nos grandes órgãos de informação, apenas algum passa-palavra em blogues.

Dir-se-á: são dirigentes do Bloco de Esquerda, partido pequenino, têm o relevo que merecem - isto é, nenhum. Não muito mais taludo é o CDS e posso aqui garantir, jurado e cruzado, que se dois dos seus dirigentes empreendessem escrever um livro, andariam numa fona de entrevistas televisivas até vir a mulher da fava-rica.

O crime do livro e dos seus autores é serem contra a corrente (melhor diria contra as grilhetas, mas isso sou eu em manifesto exagero, é claro). E põem a nu os que apuraram ser os Donos de Portugal, o seu tricô interfamiliar, as gentilezas de pataca a ti pataca a mim, a estratégia centenária de se apoderarem do aparelho de decisão do Estado, a imposição do rotativismo dos seus manajeiros embutidos no governo e a sua concepção parasitária de trocar a indústria pela renda financeira.

Está lá tudo isto no livro, com estudo, sem linguagem que se inscreva numa qualquer vulgata ideológica - o que tem o contra de ser de mais difícil compreensão para a generalidade do público - com o rigor de académicos que não se fizeram numa bimby - enfim, um trabalho sério, robusto, disponível para qualquer mano-a-mano intelectual.

Por isso mesmo, está a ser silenciado pelo predominante jornalismo da voz do Dono. É o plano B da manipulação e intoxicação: em regra, esse jornalismo regurgita sentenças do Dono como certezas que nem sequer merecem a ociosidade do contraditório; aparece um livro «do contra», com a agravante de ser bem construído e que dá um trabalhão a contestar - aplica-se a regra do silêncio. Livro? Qual livro? Não sei de nada...

E os Repórteres Sem Fronteiras, sempre disponíveis a verter lágrimas de sangue pelo martírio do jornalismo intrusivo e inescrupuloso quando chamado à responsabilidade, lamentam mas não têm um 'item' nos seus critérios que diga que a liberdade de imprensa piora quando são os próprios jornalistas a silenciar. Uma pena, não é?



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