No mesmo dia em que António Saraiva proferia a pérola acima transcrita, a bancada parlamentar do PS encarregava-se de nos presentear com mais uma eloquente demonstração do que é ser de centro-esquerda:
Vale a pena repetir o discurso do clientelismo político e do modo como os partidos do bloco central olham para a coisa pública ou podemos terminar a prosa por aqui?
DEDICADO aos VIABILIZADORES deste ORÇAMENTO
de roubo, de exploração, de incompetência,
de compadrio, de corrupção,
de Varas e Dias Loureiros,
de aumento de desemprego e de desigualdades sociais,
de apoio às antigas e novas CASTAS,
DE APOIO À BANCA, AO BCE, À MERKL (Sieg Heil!) E AOS ESPECULADORES FINANCEIROS!
Os vampiros de sempre no país em que o Cavaco, qual Infante, descobriu o mar…
Como nos maus livros policiais, onde o leitor descobre o criminoso logo nas primeiras páginas, o folhetim em torno da viabilização do Orçamento de Estado tinha um final mais do que previsível.
Depois de pseudo-avanços e recuos, falsos amuos e arrufos, encenadas dramatizações e declarações bombásticas, a palhaçada chega finalmente ao fim.
O expectável anúncio de acordo, entre o Governo e o PSD, mais não é do que o epílogo de um mau número circense, onde nem os palhaços são de boa qualidade.
Passos Coelho bem pode tentar demarcar-se do PS, apresentando meia-dúzia de propostas vagas que não alteram o essencial do Orçamento de Estado proposto pelo Governo.
Passos Coelho bem pode acenar com o cenário de uma alegada crise política, com a vinda do FMI e com mais dois ou três tremendismos à moda do Medina Carreira.
Passos Coelho pode fazer isto e muito mais, embora já todos tenhamos compreendido a inutilidade de tamanho esforço de diferenciação política face a Sócrates.
Passos Coelho pode fazer isto e muito mais, uma vez que já todos percebemos que acabará por viabilizar o Orçamento.
Passos Coelho pode fazer isto e muito mais, visto que já todos constatámos que as suas propostas se limitam a uma histérica tentativa para transformar um Orçamento de merda numa merda de Orçamento.
Apesar de todos termos conhecimento de que as Empresas Públicas são uma autêntica gamela para o clientelismo das forças partidárias do auto-designado “arco governativo”, bastando-nos para isso olhar para o percurso de vários figuras ligadas ao PS e ao PSD, fica-nos a dúvida se a denúncia de Victor Baptista teria ocorrido caso tivesse ganho as eleições internas para a referida Federação...
Embarque da Família Real, no dia 6 de Outubro de 1910, na praia dos Pescadores da Ericeira, com destino a Gibraltar (fotografia de José Artur Leitão Bárcia - Arquivo Municipal de Lisboa)