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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Entre nós e as palavras # 32 (no dia em que passam 15 anos sobre a morte de Al Berto)




deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário — o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida — e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Al Berto - "notas para o diário"


 
 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Zeca sempre!

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José Afonso, entrevista a José Amaro Dionísio, Junho de 1985





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"Maior que o pensamento" (no dia em que passam 25 anos sobre a morte de Zeca Afonso)

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José Afonso, entrevista a Viriato Teles, in «Se7e», 27/11/85










Notas:
O documentário "Maior que o pensamento" será transmitido hoje, a partir das 22:40h, na RTP 1.
As várias iniciativas de homenagem a Zeca Afonso, agendadas para os próximos dias, podem ser consultadas no site da Associação José Afonso.


domingo, 15 de janeiro de 2012

Cinematógrafo do Reviralhos # 15 (homenagem a Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, assassinados há 93 anos)


Rosa Luxemburg - Rosa Luxemburgo (1986)





Título: Rosa Luxemburg - Rosa Luxemburgo (1986)

Realização: Margarethe von Trotta

Argumento: Margarethe von Trotta

Intérpretes: Barbara Sukowa, Daniel Olbrychski, Otto Sander

Duração: 115 minutos

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A morte saiu à rua num dia assim


No dia 28 de Outubro de 1989, um bando nazi de cabeças-rapadas assassinava José Carvalho à porta da sede do PSR, onde decorria um concerto antimilitarista.

José Carvalho - o "Zé da Messa", como era conhecido por todos - fez parte da Comissão de Trabalhadores da Messa, a empresa de máquinas de escrever que em tempos foi o maior empregador no concelho de Sintra, com mais de mil e quinhentos trabalhadores. Em 1985 fechou portas, deixando centenas de pessoas com salários em atraso. Nos anos seguintes, o Zé da Messa foi um dos activistas que organizaram a luta pelos direitos destes trabalhadores.

Dirigente do PSR desde o fim dos anos 70, José Carvalho foi um dos impulsionadores do trabalho antimilitarista do partido, após ter participado nos SUV - Soldados Unidos Vencerão, um movimento de militares pela democracia nos quartéis constituído em 1975. Doze anos mais tarde, foi um dos responsáveis pela organização dos concertos do bar das Palmeiras, que envolveu dezenas de bandas rock contra o serviço militar obrigatório. Foi num destes concertos que viria a ser assassinado pela extrema-direita.







domingo, 25 de setembro de 2011

domingo, 3 de julho de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Entre nós e as palavras # 25


há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto - "Salsugem / 9"
 
 
(Fotografia: Paulo Nozolino - pormenor da imagem de capa do livro "Horto de Incêndio")
 

sábado, 28 de maio de 2011

Memórias Afectivas VII

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Gil Scott-Heron (01 de Abril de 1949 - 27 de Maio de 2011)



Há exactamente uma semana recordávamos a eterna actualidade de "The Revolution Will Not Be Televised".
Hoje, dia em que nos chega a notícia do falecimento do seu autor, voltamos a evocar o legado do poeta-músico-activista Gil Scott-Heron. 
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"The Klan" - Gil Scott-Heron

Countryside was cold and still
There were three crosses on the hill
Each one wore a burning hood
To hide its rotten core of wood
And I say father, father I hear an iron sound
Hoof beats on the frozen ground
And downhill the riders came
Lord it was a cryin' shame
To see the blood upon their whips
To hear the snarlin' from their lips
And I cried mother, mother I feel a stabbing pain
Blood runs down like summers rain
And each one wore a mask of white
To hide his cruel face from sight
And each one sucked a hungry breath
Out of the empty lungs of death
And I say sister, sister, I need you to take my hand
It's always lonely when it's time to stand
He who rides with the klan
Is a devil and not a man
For underneath his white disguise
I have looked into his eyes
And I say brother, brother, stand by me
It's not so easy to be free
Father, mother, sister, brother, stand by me
It's not so easy to be free
It's not so easy to be free
It's not so easy to be free
Nobody ever said it would be easy
Nobody ever said it would be easy
It's not so easy, no it's not so easy


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